sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense



No domingo de 17 de Maio de 1964 José Afonso é o convidado para cantar na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense num espectáculo” de fino gosto musical”, que a sociedade leva a efeito em continuação dos festejos do seu 52° aniversário. O espectáculo, que o cartaz promocional garante que deliciará o público, apresenta na 1ª parte Carlos Paredes e Júlio Abreu em “Variações à Guitarra” e na segunda parte o Dr. Zeca Afonso acompanhado de Rui Pato, interpretando Baladas e Canções de Coimbra. No pequeno texto de apresentação refere-se que o Dr. José Afonso “embora mantendo ainda nas suas canções os sentidos musical e interpretativo de Coimbra (...) revela-se um inovador”. Acrescenta-se ainda que “através das suas belas e estranhas baladas perpassa todo o sentido poético-trágico da sensibilidade do nosso povo”, afirmando-se convictamente que “Pela primeira vez, através deste cantor-poeta de temática eminentemente popular, a canção portuguesa encontra um caminho certo”. A sessão em Grândola foi, por diversas razões, marcante na vida de José Afonso. Eis como ele a conta, anos mais tarde, a José Salvador: “Naquela altura enfiava-me nos buracos que me aparecessem no meio de bailes, casamentos, cantava por minha conta e risco. Respondia pelos meus actos. As coisas vão tomando corpo quando recebo um convite da Música Velha de Grândola, assinado pelo Zé da Conceição, que estava ligado ao teatro local orientado pelo Hélder Costa. (...) Fiquei brutalmente satisfeito com o convite para cantar na Música Velha. Meti-me no comboio com a Zélia e aí encontro-me com o Carlos Paredes que também tinha sido convidado. Foi a primeira vez que conheci o Paredes e então fiquei extremamente impressionado com a colectividade: num local obscuro, quase sem estruturas nenhumas, com uma biblioteca de evidentes objectivos revolucionários, uma disciplina generalizada e aceite entre todos os membros, o que revelava já uma grande consciência e maturidade políticas. Nem cheguei a conhecer quem era o director, quem era afinal o fiscal, mas tudo aquilo corria sobre rodas. Foi nestas circunstâncias que conheci o Zé da Conceição, que me impressionou assim como os seus colaboradores. O meu contacto com a Música Velha antes de ir para África foi extremamente importante (...).
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No espectáculo José Afonso canta pela primeira vez “Ó Cavador do Alentejo” (não editado em disco), uma canção feita na véspera do espectáculo, que daria posteriormente origem ao "Cantar Alentejano" que, conforme refere numa carta aos pais, era “uma espécie de evocação da terra alentejana e do seu símbolo ainda vivo na lembrança do homem do povo: Catarina Eufémia, uma ceifeira de Baleizão morta pela Guarda Republicana em circunstâncias que forneceriam matéria para uma canção de gesta”. O poema da canção, para além de conter um dos inícios mais bonitos da história da música portuguesa (“Chamava-se Catarina, o Alentejo a viu nascer...”) é uma das mais fortes acusações à política da ditadura, encerrando ao mesmo tempo uma clara mensagem de esperança e um apelo à resistência (“Quem viu morrer Catarina, não perdoa a quem matou...”)
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Na carta que escreve aos pais José Afonso dá conta de quanto a passagem por Grândola o marcou. Afirma convictamente que “Se alguma vez tiver de deixar esta terra, é a lembrança destes homens que conheci em Grândola e noutros lugares semelhantes que me fará voltar”.
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A 21 de Maio José da Conceição recebe, também, uma carta de José Afonso. Nela o cantor junta um poema dedicado a Grândola, que é lido em sessão pública, na mesma sala onde foi realizado o espectáculo, no dia 31 de Maio. Deste modo os presentes escutam, pela primeira vez: “Grândola Vila Morena/Terra da Fraternidade/O Povo é quem mais ordena/Dentro de ti ó cidade/Em cada esquina um amigo/Em cada rosto igualdade/Grândola Vila Morena/Terra da Fraternidade/Capital da Cortesia/Não se teme de oferecer/Quem for a Grândola um dia/Muita coisa há-de trazer”.

Daqui


Sobre este cartaz há duas situações que por não corresponderem à verdade, justifica só por si uma intervenção para esclarecimento.

Quem acompanhou à viola Carlos Paredes foi efetivamente Fernando Alvim e não Júlio Abreu que era um ciclista muito popular na época, e Rui Pato não acompanhou à viola Zeca Afonso.

Sobre este programa, José da Conceição, que era um dos membros da direção da Música Velha (assim era designada a Sociedade Musical Operária Grandolense) e foi quem convidou e acolheu Zeca Afonso nesse evento, esclarece:

«O espectáculo foi de facto excepcional. (...) Há um episódio engraçado, porque no programa aparece o nome de Júlio Abreu, que era o nome de um ciclista. O tipo da tipografia devia gostar muito de ciclismo, ou devia estar a falar em ciclismo quando estava a fazer o cartaz, porque o certo é que se enganou e, em vez de Fernando Alvim, pôs o nome de Júlio Abreu. Também aparece lá o nome de Rui Pato, que também não foi. Como o Zeca cantava sempre com o Rui Pato, ficámos convencidos que não precisávamos de o convidar, porque o Zeca trataria disso. Quando o Zeca chegou, não havia Rui Pato, mas não houve problema porque ele se acompanhou a si próprio.»

Fim de citação

In Zeca Afonso "Livra-te do Medo" de José A. Salvador, página 98.

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