quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Baladas de Coimbra - 1963

Este EP foi gravado no Mosteiro de S. Jorge de Milreu - Coimbra

Viola: Rui Pato.

Letra e música de Zeca nas canções "Os Vampiros" e "Menino do Bairro Negro" e musicou as outras duas composições.

Enquanto no "Os Vampiros" a letra versa a opressão do capitalismo, já o "Menino do Bairro Negro" foi inspirado na miséria do Bairro do Barredo (Porto) que devido à ida dos homens para a guerra colonial e à emigração, fez crescer os bairros de lata na periferia das grandes cidades.

É um grito contra a marginalização e a pobreza do nosso povo que mesmo após o 25 de abril de 1974 não conseguiu resolver a situação e agora volta-se a cair nessa pecha da sociedade portuguesa. Não há guerra colonial mas a pobreza aí está, marginalizando de novo o povo sofrido para as periferias do urbanismo sócio-económico mais resistente.

EP Baladas de Coimbra - 1963 com a mesma designação do EP anterior (1962) é o segundo disco onde participa Rui Pato.

Os Vampiros inicialmente não foi de contestação ao governo vigente, mas rapidamente assumiu como tal e acredito que a partir deste tema, a vida do Zeca nunca mais voltou a ser a mesma. Tinha "nascido" a canção que ajudou a revolucionar o país.

Vampiros

Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho, muito em voga nas nossas composições radiofónicas e no nosso music­haIl de exportação. Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair. Foi essa a intenção que orientou a génese de “Vampiros”, entidades destinadas ao desempenho duma função essencialmente laxante ao contrário do que poderá supor o ouvinte menos atento. A fauna hiper­nutrida de alguns parasitas do sangue alheio serviu de bode espiatório. Descarreguei a bilis e fiz uma canção para servir de pasto às aranhas e às moscas. Casualmente acabou-se-me o dinheiro e fiquei em Pombal com um amigo chamado Pité. A noite apanhou-nos desprevenidos e enregelados num pinhal que me lembrou o do rei e outros ambientes brr herdados do Velho Testamento.

José Afonso

Canção Vai-e-Vem

O belo poema de Paulo Armando pareceu-­me, como na realidade foi, inutilmente sacrificado aos compassos de uma valsa monótona e fria. Para finalizar exigia-se uma conclusão airosa; o estribilho, meio anedótico, foi colhido num livro de cancioneiro algarvio pertencente à biblioteca da Capitania de Faro. O verso Bonecas, primores, da minha lavra, substituiu o original Bonecos de palha. O resultado, um pouco cabotino, impôs-se pela necessidade de sujeitar a letra ao primado da música.

José Afonso

Menino do Bairro Negro

Estilização decente de um refrão indecente recolhido numa parede cheia de sinais cabalísticos, desses que conservam para a posteridade as mais expressivas jóias dos géneros líricos nacionais. A negritude de que fala o poema existe nos estômagos diagnosticados por Josué de Castro no seu livro “Geopolítica da Fome”. Os meninos de ouro que habitavam os céus antes do Dilúvio descem à Terra e são condenados pelo tribunal de menores a viverem em habitações palafitas até ao dia do Juízo Final representado por uma bola de cartão que desce, desce até tocar nas montanhas.
José Afonso

(MENINO DO BAIRRO NEGRO NASCEU NO PORTO — O Porto foi para mim fundamental. Ia muitas vezes lá porque tinha amigos. Um deles o Godinho que me deu a conhecer a cidade : a Ribeira , o Barredo. Tudo aquilo me chocou de uma maneira espantosa. A primeira vez que cheguei ao Porto depois de várias boleias era de noite… Num dos bairros da Ribeira, vejo quatro tipos a urinar para dentro de uma lata . Era uma cena altamente surrealista, mas muito tripeira. Lembro-me de ter visto os meninos que pululavam por aquelas ilhas . Foi uma coisa que eu pensei que só existisse nos filmes . . . O conhecimento do Porto de todas estas realidades é que me deu o tema do – Menino do Bairro Negro – Expliquei mais tarde que negritude de que falava a canção , não dizia respeito à cor da pele, mas à condição de meninos explorados diagnosticados por José Castro no seu livro Geopolítica da Fome .»

in "Livra-te do Medo" de José A. Salvador)

As Pombas

Pretendia-se que a melopeia, feita de reiterações e alongamentos em que a voz mantém as sílabas finais até se extinguir lentamente, correspondesse a um fundo independente do contexto literário e vice-versa. O poema, a melodia e o acompanhamento separam-se e reúnem-se de novo, repelidos por uma espécie de movimento ascensional sem princípio nem fim. A voz eleva-se e tenta fixar por meio de modulações adequadas o voo dos pássaros que se perde na distância.

José Afonso





A letra de "Os Vampiros" manuscrita por Zeca

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