segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Luís Cília

Quando é que se deu o primeiro contacto com a música do Zeca Afonso?

"Já foi em Paris. O Adriano conheci-o pessoalmente aí, mas não tinha nenhum disco dele. E foi por essa altura que ouvi o primeiro disco do Zeca Afonso, acompanhado na viola por uma pessoa também muito importante, com um excelente trabalho, o Rui Pato​. Foi aí que conheci os primeiros discos do Zeca Afonso, que eram uma maravilha, de um talento enorme."

E quando é que conheceu pessoalmente o Zeca Afonso?

Foi em Paris, porque eu não podia vir a Portugal. Conheci-o quando o Zeca foi lá cantar pela primeira vez. Já não me recordo da data precisa, mas ainda foi nos anos 60, numa espécie de foyer de estudantes no Bairro Saint-Michel, que era dirigido pelo Ayala, um exilado que vivia lá há muitos anos. A partir daí ficámos amigos. Ele e a Zélia chegaram a ficar em nossa casa numa altura em que não estávamos em Paris. Comecei, portanto, a ter uma relação mais intensa com o Zeca, também com o Paco Ibáñez que conheceu o Zeca nessa época através de mim."

daqui:

http://www.esquerda.net/dossier/um-grande-amigo-e-um-homem-extraordinario/47140

foto: Luís Cília e Zeca, na Festa do Avante 1980

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Benedicto

"E aqui quero fazer uma referência especial porque quando falamos de cantores militantes não podemos esquecer o Benedicto, natural de Santiago de Compostela, galego, que fez comigo mais de cinquenta sessões, algumas delas com José Jorge Letria e outros.

Como é óbvio, a maior parte de tais sessões foi clandestina e na fase final do fascismo quando o movimento sindical começou a estruturar, gerando mais tarde a Intersindical, fomos convidados frequentemente para actuar nos caixeiros, depois nos bancários (também convidaram o Fanhais)."

fonte: José Afonso - Andarilho nas Astúrias de Mário Correia​

fotos: Zeca em Santiago de Compostela com Fanhais, JJLetria e Benedicto



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O cancro

"Íamos, os dois, em pé, no eléctrico para a Praça da República e ele, no seu jeito irreverente, disse, em voz alta, uma graçola qualquer sobre Salazar - talvez: "Diz-se que o António tem um cancro; coitadinho do cancro!". Houve uns quantos sorrisos discretos...

Quando descemos do eléctrico, o Zeca foi abordado por um sujeito desconhecido que lhe mostrou "qualquer coisa", que trazia escondida sob o virado do casaco. "Que raio de merda é essa?", foi a reacção descontraída do Zeca. O homem agarrou-o por um braço, e mostrou-lha melhor - era um crachá da PIDE!

O Zeca ficou entupido e o homem disse-lhe: "Tenha juizinho e não volte a dizer aquelas baboseiras!"


fonte: "Zeca Afonso antes do mito" de António dos Santos e Silva

foto: Zeca com o irmão João, António dos Santos e Silva deitado no capô e o primo Tó, filho da tia Avrilete, atrás à dtª.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Canção do Mar

"Canção do Mar" do EP "Cantares de José Afonso" - 1964
(disco proibido pela censura)

viola: Rui Pato​


Ó mar
Ó mar
Ó mar profundo
Ó mar
Negro altar
Do fim do mundo

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
O teu olhar

Ó mar
Ó mar
Ó mar profano
Ó mar
Verde mar
Em que me irmano

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar



foto: Zeca com a filha Joana

sábado, 5 de agosto de 2017

Zeca pelo olhar do pai.

numa carta enviada de Díli para o irmão Filomeno.

«Não é uma criança má nem lorpa. Em Lourenço Marques, o professor, apesar de não o compreender, afirmava que ele é inteligente. Quanto a bondade, dizia que ele era o melhor aluno que tinha na escola! Então que é ele? Não sei. Sei apenas que é uma criança... terrivelmente criança»

Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O que me ficou de Coimbra...

«O que me ficou de Coimbra... o lirismo também. Nós vivíamos em Coimbra acima das suas possibilidades reais. Imaginava Coimbra acima das suas reais dimensões. Era uma Coimbra poetizada porque quando eu queria concretizar na cidade essa imagem, era uma chateza do caraças.

Invariavelmente ia dar à Rua Visconde da Luz, à Ferreira Borges, e encontrava os mesmos tipos nos mesmos lugares, ali no Arcádia, e pensava muitas vezes: afinal esta cidade é muito mais fechada, é muito mais prosaica do que possa parecer.»

Zeca Afonso


"José Afonso, o Rosto da Utopia", de José A. Salvador

Foto: Zeca com António Portugal

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

88 anos do Zeca

José Afonso nasceu a 2 de agosto de 1929. Se fosse vivo hoje faria 88 anos.

Parabéns Zeca

"Zeca resulta da enxertia de uma cepa beirã (pai) em vide minhota (mãe), ambas transplantadas para a foz do Vouga. Da combinação onomástica dos progenitores saiu-lhe o nome: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. As contingências, sempre arbitrárias, reduziram-no mais tarde para José Afonso, Zeca para os mais íntimos (...)

Não existe a casa onde Zeca nasceu, na parte superior daquilo que foi a escola infantil, por essa altura a cargo da mãe. Uma instituição pré-primária que remontava ao liberalismo"


"Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Zeca pelo olhar do irmão João

"Dos três irmãos (João, Zeca e Mariazinha), foi ele quem mais se aproximou, na fisionomia e talvez na psicologia, dos Cerqueiras. (...) A tez clara, os olhos rasgados (para horizontes invisíveis) e também uma sensitiva vibração, a capacidade imagética, a descoberta do lado oculto das coisas vinham, a meu ver, da costela Cerqueira ou talvez da parte Dantas Cerqueira.

Mas a moldura era dos Afonsos, neste sentido de que puxava ao pai, por sua vez mais parecido com o pai dele (o avô Santos) do que com a mãe (a avó Lucrécia) onde o sobrenome Afonso vai buscar afinal a sua origem."


"Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos