quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Rui Pato - Testemunhos de uma vida

Rui Pato com Zeca Afonso


Rui Pato com Zeca Afonso



Rui de Melo Pato nasceu em Coimbra a 5 de junho de 1946. Tinha Rui Pato 16 anos quando começou a acompanhar à viola Zeca Afonso. Participou com Zeca em 7 discos durante 7 anos (1962-69). Foi um acaso que levou Rui até Zeca. Depois da morte do pai, Zeca chega a Coimbra vindo do Algarve. Queria mostrar novas músicas aos amigos e pediu uma viola, no «Brasileira». O pai de Rui Pato (o jornalista Rocha Pato), diz:



«Só se formos a minha casa: o meu filho anda a aprender guitarra clássica e podes tocar com a viola dele». Assim aconteceu mas, pouco depois, Rui estava a acompanhar o Zeca e este entusiasmado disse: «É este puto que vai gravar comigo»



Rui Pato gravou três EP, três LP e um single, num total de 49 temas. Rui Pato foi proibido pela PIDE a deslocar-se a Londres em 1969 para gravar o álbum "Traz Outro Amigo Também", devido à sua participação na Crise Académica de 1969. Neste álbum Rui Pato foi substituído por Carlos Correia (Bóris)



Fonte: "Canto de Intervenção" de Eduardo M. Raposo



As noites de canções com Salgueiro Maia:




(clicar no play)


O despertar:

"Só tive consciência do perigo e da importância de tudo aquilo que estávamos a fazer um ano depois de já estar com ele. Quando comecei, em 1962, não me tinha apercebido da importância de todas aquelas canções e daquilo que o futuro nos reservava", recorda. Estava, sem saber, talvez pela aventura da idade, a entrar numa luta: "Era um combate contra a censura, o regime, os preconceitos e todos aqueles que achavam que era estranho que a música pudesse servir de arma".

A Censura:

"A liberdade, escondida entre versos, valeu-lhe a atenção da PIDE. Começou a ser vigiado, foi expulso da Universidade e obrigado a entrar para o serviço militar coercivo. "Era quase uma forma de guerrilha artística, e eu, como se poderia dizer, dei o peito às balas", conta. Alguns lugares das plateias começaram a ser preenchidos por agentes da polícia política e a censura prévia tornou-se habitual.

..."Aos mecanismos mais intensos de repressão, respondiam as requintadas ironias. A liberdade não era para o ouvido de todos. "Há relatos dos censores e até de agentes da Direção Geral dos Espetáculos, que estão na Torre do Tombo, que faziam relatos perfeitamente ridículos. Não percebiam muitas das coisas. Lembro-me de tocarmos os 'Vampiros', das primeiras vezes, e eles pensarem que estávamos a falar mesmo dos bichos".

Fonte:JPN

Parte de uma gravação realizada pelo programa "Violas e Vozes de Abril" onde Rui Pato fala de Zeca e Adriano Correia de Oliveira.



Mais sobre Rui Pato (clicar aqui)

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Zeca em Moçambique - 1982

«Em nome do Governo, são bem-vindos! Estão em vossa casa.»

Foi com estas palavras que as autoridades de Moçambique receberam José Afonso e os seus companheiros (a mulher Zélia, Serginho, Júlio Pereira e Janita Salomé), em abril de 1982.

«O Zeca», diz Júlio Pereira, «andou sempre bem disposto, e a própria recepção com flores e abraços foi de algum modo o reconhecimento da FRELIMO pelo que José Afonso fez em Moçambique quando lá esteve nos anos sessenta. Foi o período em que vi o Zeca mais feliz»

Durante um mês Zeca e os companheiros, deram vários concertos na capital, Beira, Tete e nos Songo (Cabora Bassa) com as salas sempre cheias.



Fonte: "Livra-te do Medo" de José A. Salvador

Foto do arquivo de Júlio Pereira.




sábado, 21 de novembro de 2015

Alípio de Freitas canta Zeca Afonso

Álbum "Co'as Tamanquinhas do Zeca!" dos Couple Coffee - Reedição 2014


"Traz outro amigo também" conta com a voz do próprio Alípio de Freitas que, nascido em Vinhais, em 1929, deixa ali impresso o seu sotaque transmontano e altivo. Luanda (filha de Alípio de Freitas) conta, agora, como correu a experiência:

“Pôr o meu pai a cantar não foi nada difícil. Há uns dois anos que estávamos com essa ideia, mas fomos enrolando. Estas duas músicas tinham ficado de fora do disco ("Co’as Tamanquinhas do Zeca!", álbum editado em Abril de 2007), "Alípio de Freitas" por aqueles motivos todos e "Traz outro amigo também" porque foi uma música em que eu não queria mexer. Porque, para mim, ‘aqueles que ficaram’ são os que ficaram pelo caminho. Estou cercada de defuntos, enfim. Mas achei que agora era a hora dessa canção, propus ao meu pai e ele foi profissionalíssimo, 40 minutos de estúdio e gravou tudo, cantando, falando deu uma alegria, uma dignidade à canção. Quisemos deixar a forma como ele fala, o timbre muito transmontano, ficou muito lindo assim.”


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

«Os dois Zés, o Afonso e o do Telhado»

Testemunho de Hélder Costa - Encenador e diretor artístico do grupo "A Barraca"

Como Hélder Costa "convenceu" Zeca a escrever os temas para a peça "Zé do Telhado".

Músicas para o Zé do Telhado no álbum Fura-Fura.

"Quanto é doce - as sete mulheres do minho - o cabral fugiu para a espanha - de quem foi a traição - quem diz que é pela rainha - na catedral de lisboa."


O cartaz da época

A Barraca conta : Zé do Telhado - 1978 - Teatro

Texto do cartaz: Texto de Helder Costa; Música de Zeca Afonso; Cenografia de João Brites; Encenação de Augusto Boal; António Cara d'Anjo, João Maria Pinto, João Soromenho, Luís Lello, Manuel Marcelino, Margarida Carpinteiro, Maria do Céu Guerra, Mário Viegas, Orlando Costa, Paula Guedes, Santos Manuel.

Subsidiado pela Secretaria de Estado da Cultura

http://sinbad.ua.pt/cartazes/CT-ML-II-3638


Vídeo - Quanto é doce

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Biografia resumida - Conclusão

1953 - 24 anos - Tropa - Mafra (Agosto de 1953) Em 53 nasceram os dois filhos de Zeca, José Manuel (18 de janeiro, foi padrinho Carlos Couceiro) e Helena (29 de dezembro). Grava os seus primeiros singles em 78rpm, dá explicações e revê provas do Diário de Coimbra.
1954 - Tropa - Coimbra (Janeiro de 1954)
1955 - o filho José Manuel, vai de encontro dos avós a residirem em Lourenço Marques.
1956 - Baixa na tropa (14 de janeiro de 56 - Estava mobilizado para Macau). Regresso do filho José Manuel por ocasião do gozo de licença do avô.
1957 - Professor em Mangualde (6-1-1957 a 30-9-1957). Professor em Lagos (28-10-1957 a 22-7-1958)
1958 - Professor em Faro (7-10-1958 a 18-7-1959)
1959 - No início do ano lectivo 1959/1960 está 10 dias em Aljustrel e depois transita para a Escola Técnica de Alcobaça.
1960 - Professor Escola Técnica de Alcobaça. Grava o EP "Balada do Outono"
1961 - Professor Escola Industrial e Comercial de Faro (17-10-1960 a 25-7-1961) - Conhece Zélia. Licencia-se em História-Filosóficas (3 de novembro)
1962 - Professor Escola Industrial e Comercial de Faro (6-11-1961 a 30-7-1962). Começa a gravar com Rui Pato. EP "Baladas de Coimbra"
1963 - Professor Escola Industrial e Comercial de Faro (19-10-1962 a 31-7-1963) – Divorcia-se de Maria Amália. Grava Dr. José Afonso em "Baladas de Coimbra"
1964 - Professor Escola Industrial e Comercial de Faro (7-10-1963 a 29-7-1964) - Casa com Zélia (4 de janeiro). Grava "Cantares de José Afonso" e "Baladas e Canções". No final do verão embarca para Moçambique, com um contrato de professor.
1965 - Liceu António Enes, em Lourenço Marques (1964/1965)- Leciona Geografia - Nasce, a 8 de agosto, a filha Joana*.

* Joana, nasce em Lourenço Marques. Tinha 15 dias quando Zeca, Zélia, a filha Helena e Joana a 23 de agosto, foram para a Beira onde Zeca iria lecionar.

(Fonte: José Afonso – Um Olhar Fraterno, flªs 174)

1966 - Liceu Pero de Anaia, na Beira (14-9-65 a 30-7-1966)
1967 - Revogado o contrato e leciona como eventual (18-9-1966 a 29-7-1967). Regressa a Portugal antes do fim do contrato, com Zélia e dois filhos, Helena e Joana. Fica com o tio-avô Filomeno o filho mais velho José Manuel. Em outubro dá aulas no Liceu Nacional de Setúbal - aulas de Organização Política. Internado na Casa de Saúde de Belas durante 20 dias, é exonerado do ensino «por conveniência de serviço». Passa a dar explicações.
1968 - Contrato com Arnaldo Trindade Cª Lda. Regime de exclusividade, um mínimo de três discos LP (36 trechos), num prazo de dezoito meses a contar de 1-3-1969, com um cachet de 45 000$00 por cada lote de doze canções. Grava o "Cantares do Andarilho"
1969 - É colocado após requerimento, como professor na Escola das Areias em Setúbal (7-10-1969 a 31-7-1970). Em 1969 funcionava como Ciclo Preparatório) no primeiro grupo numa área que não domina - Ciências da Natureza (segundo depoimentos de alunos foi professor de História e não de Ciências (http://www.aja.pt/o-meu-professor-de-historia-jose-afonso/ ). No ano seguinte é indeferido o requerimento e não volta a dar aulas no ensino público. Grava o single "Menina dos Olhos Tristes" e o LP "Contos Novos, Rumos Velhos". Nasce o filho Pedro a 2 de setembro.
1970 - Celebra novo contrato com Arnaldo Trindade - gravação no mínimo de dois LP no periodo de dezoito meses (no contrato seguinte o prazo passa para dois anos), por uma quantia fixa, a que acresce 10 contos mensais como consultor musical da empresa: 3 de setembro.
Grava em Londres o "Traz Outro Amigo Também"
1971 - É detido pela PIDE/DGS em Lourenço Marques quando de visita aos pais e irmãos. É reembarcado para Portugal. Grava Cantigas do Maio em Paris, foi detido no aeroporto antes do embarque. Participa em Valência no II Festival da Canção Ibérica
1972 - Zeca canta Grândola pela primeira vez, para estudantes de Santiago de Compostela. Grava em Madrid "Eu Vou Ser Como a Toupeira".
1973 - Preso em Caxias de 30 de abril a 21 de maio. Grava em Paris "Venham Mais Cinco"
1974 - Participa no I Encontro da Canção Portuguesa a 28 de março, com grande aparato policial. Grava em Londres "Coro dos Tribunais". Dá-se o 25 de abril sendo Grândola a senha para o arranque definitivo da operação.
1975 - Participa na campanha de dinamização cultural «Maio-Nordeste» no distrito de Bragança. Canta e faz pedagogia popular pela LUAR, organizações sindicais... Visita Angola (atuou em janeiro em Cabinda no Cinema Chiloango, onde estive com ele no palco). Grava em Itália o LP República. Morre o pai a 13 de outubro.
1976 - Viagem à Alemanha onde grava um disco. Apoia a candidatura à presidência de Otelo.
Grava "José Afonso em Hamburg" e "Com as Minhas Tamanquinhas"
1977 - sem referências
1978 - Participa na formação da cooperativa «Era Nova». Vai a Angola a convite do MPLA. Grava "Enquanto à Força".
1979 - Digressão pela Galiza. Grava "Fura Fura"
1980 - Concertos na Alemanha Federal
1981 - Espetáculos no Théatre de la Ville em Paris. Grava "Fados de Coimbra e Outras Canções" (disco de prata).
1982 - Participa no festival «Le Printemps de Bourges» (França)
Contrato com a Sasseti (com data de 1 de março e termo a 1-3-1985). Visita em Abril Moçambique, a convite da FRELIMO. Primeiros sintomas da doença.
1983 - Recusa a Ordem da Liberdade. Espetáculo no Coliseu de Lisboa a 29 de janeiro, a 5 de fevereiro - Caldas da Rainha, 25 de maio - Coliseu do Porto, 26 de maio - Coimbra e 1 de junho - Beja. Grava "Como Se Fora Seu Filho". É reintegrado no ensino oficial, na Escola Preparatória de Azeitão, como professor de História e de Português.
1984 - Internamento na Clínica Santa Isabel, em Coimbra.Em 24 de Abril, doze cantores que participavam no Concerto pela Paz e pela Não Intervenção na América Central, enviam-lhe da capital da Nicarágua (Manágua) uma mensagem: “Queremos enviar-te um abraço revolucionário e dizer que te sentimos junto a nós, cantando o homem novo, que como agora em Nicarágua, um dia haverá de nascer em Portugal”. Assinam esta mensagem, entre outros, Chico Buarque, Pete Seeger, Daniel Viglietti, Carlos Mejía Godoy, Amparo Ochoa, Silvio Rodríguez e Isabel Parra.
Zeca Afonso gostava de considerar este pequeno texto de solidariedade como a sua “coroa de glória”.
1985 - Apoia a candidatura de Maria de Lurdes Pintasilgo. Grava o seu último álbum "Galinhas do Mato" (este LP canta em duas canções, que já estavam anteriormente gravadas)
1986 - Compõe algumas canções em casa com a ajuda à viola de Júlio Pereira
1987 - Morre, em Setúbal, a 23 de fevereiro.


Biografia resumida - Liceu e Faculdade

– Liceu

1940 - 11 anos - a 27 julho faz a admissão ao liceu em Coimbra. No outono muda para Coimbra para a casa da tia Avrilete. 1º ano liceu. Conhece António Portugal e Luiz Goes.
1941 - 12 anos - 2º ano
1942 - 13 anos - 3º ano
1943 - 14 anos - 4º ano - conhece Carlos Couceiro
1944 - 15 anos - 5º ano - chumba. No fim da II Guerra Mundial, José Afonso recebe, finalmente, notícias dos pais.
1945 - 16 anos - 5º ano - chumba
1946 - 17 anos - 5º - conhece António dos Santos e Silva
1947 - 18 anos - 6º. Começa a cantar serenatas como “bicho”.

“As minhas primeiras veleidades de cantor surgiram quando andava no 6º ano do liceu. As noites passava-as em deambulações secretas pela cidade, acompanhado de meia-dúzia de meliantes da minha idade, amantes inconsequentes da noite. Com uma guitarra e uma viola fazíamos a festa. Estávamos ainda longe do hieratismo triunfal das serenatas na Sé Velha diante de multidões atentas e respeitosas. O velho Flávio Rodrigues continuava a ser o «Mestre», venerado por um pequeno discipulado de guitarristas e acompanhadores que com ele se reuniam numa pequena casa do bairro de Celas onde acabou os seus dias minado por uma doença fatal.”(1)

1948 - 19 anos - 7º acaba o liceu. Vai a Angola e a Moçambique com o Orfeão.

"No Orfeon (onde foi solista), era segundo tenor: tinha um voz expressiva, de timbre aveludado, porém de pouca força e altura; por isso, foi um cantor de fados discreto."(2)

– Faculdade

1949 - 20 anos - 1 º ano Faculdade de Letras. Curso Ciências Histórico-Filosóficas (Inicio a 20 de novembro)
1950 - 21 anos - 2º ano - Casa com Maria Amália em segredo, por oposição dos pais (11 de novembro)
1951 - 22 anos - 3º ano - Integra uma lista de esquerda para a eleição da direção da Associação Académica de Coimbra.
1952 - 23 anos - Faculdade - chumba por faltas

Fim do Período Escolar

(1) - José Afonso, Autobiografia, Cidade da Beira, 1967
(2) - António dos Santos e Silva in Zeca Afonso ‘Antes do Mito'


Biografia resumida - As primeiras letras

1935/36 - 6 anos - 1ª classe - Luanda


1936/37 - 7 anos - 2ª classe - Aveiro - Licença graciosa do pai, vai no verão a família para Belmonte para casa do tio Filomeno. Aqui ouvem a queda de Bilbau (19 de junho) pelos nacionalistas do Generalíssimo Franco (“Franco manda e a Espanha obedece”)



1937/38 - 8 anos - 3ª classe - Lourenço Marques


1938/39 - 9 anos - 4ª classe - Lourenço Marques - Regresso a Portugal de Zeca e irmão no paquete João Belo em julho. Os pais e a irmã vão em agosto para Timor e eles para Belmonte para casa do tio Filomeno. João fica em Coimbra na casa da tia Avrilete depois de feito o exame de admissão ao Liceu, Zeca fica em Belmonte.


1939/40 - 10 anos - Belmonte - a 27 julho de 1940 faz a admissão ao liceu. No outono muda para Coimbra para a casa da tia Avrilete.


P.S. - Em 1939, Zeca e o irmão João vêm para Portugal em julho enquanto os pais e a irmã Mariazinha, vão para Timor em agosto desse ano.

Zeca Afonso já tinha a 4ª classe feita em Lourenço Marques, mas voltou a repetir em Belmonte, pois não estava preparado para o exame de admissão ao Liceu. O irmão João que tinha reprovado na 4ª classe por ter faltado ao exame devido a um problema de saúde (operado de urgência a uma apendicite aguda que não correu lá muito bem), teve como companheiro de ano o irmão Zeca embora em salas diferentes.

Regressados ambos a Portugal como referido acima, João faz o exame de admissão ao Liceu, Zeca repete o ano preparando-se para o exame.

A razão disso explica João no seu livro "O Último dos Colonos".

"O ano escolar, em Portugal, não coincidia com o de Moçambique (...) A prova (exame da 4ª classe) decorreu três a quatro meses antes do termo do ano lectivo, de modo a irmos a tempo do exame de admissão ao liceu e da reabertura das aulas em Coimbra."

Numa das salas da Rebelo da Silva, escola primária em Lourenço Marques onde ambos estudavam, eles eram os únicos a fazerem o exame da 4ª classe. Vieram para Portugal no paquete João Belo tendo como destino Belmonte, ou seja, a casa do tio Filomeno.

Retomo agora o depoimento do João.

"Encontrávamos em Belmonte (...). Algum tempo depois, a professora do ensino primário, Senhora D. Ilda Bidarra, faz-me umas sabatinas, com vista às provas de admissão ao liceu. Zeca ficou excluído desse desígnio imediato, talvez porque, amputado dum largo período de preparação, não estivesse em condições de se submeter a exame."

... E assim João segue para Coimbra para casa da tia Avrilete e Zeca fica em Belmonte naquele que iria considerar o pior ano da sua vida.


Biografia resumida - Os primeiros passos

1929 - Nasce em Aveiro (na freguesia da Glória) a 2 de agosto, no piso superior e residencial da «escola infantil» de que a mãe é diretora.

1930 - 1 ano - Aveiro - casa dos avós e tia paternos a residirem perto do edifício da Capitania, à beira de um dos braços da ria. Os pais e o irmão João vão para Angola.

1931 - 2 anos - Aveiro - casa do tio Chico e da tia Jejé (tia materna) moradora no Largo das Cinco Bicas.

1932 - 3 anos - Nasce em Silva Porto (Angola) a irmã Mariazinha (21 de março)

1933 - 4 anos (princípios deste ano vai para Silva Porto no paquete Mouzinho. Zeca tinha cerca de 3 anos e meio)




1934 - 5 anos - Luanda - Angola



Ti Zé Pastor

"Ele ia muitas vezes à Arrábida. Ia ver o ti Zé pastor, que dizia que era o grande filósofo que existia. É preciso ver que o Zeca tinha uma grande relação física com a terra e gostava muito de passear por lá. Lembro-me de numa dessas vezes o ti Zé Pastor lhe pedir para ele trazer uma varina de Setúbal, ao que o Zeca respondeu: "Eh, pá, isso já é mais complicado." Conversavam sobre filosofias que eu nem sequer entendia" (1)

"Todos os percursos vão dar à Serra e desta ao mar (...). Ti Zé pastor é um dos apeadeiros do caminho. A Serra ou as imediações dela é o seu terreno, o seu habitat. Vive isolado entre as brenhas. Tirando as ovelhas e um outro Argos que o acompanha, não conversa com ninguém, nem com ninguém tem com que conversar, salvo se calha passar por aquelas partes um cujo sedento bucolismo compensador (...) Crente nos olhos e nos ouvidos e céptico para as verdades intelectuais (...) vão lá dizer-lhe que o homem pôs o pé na Lua! «Pode lá ser. Quem é que lhe disse a Vossemecê?» - «Ar fresco e exercício é o que lhe falta, Sr. Zeca».

Comemos um pão ázimo e bebemos dum vinho agreste como a natureza que o dono daqueles casebres, também ermita nas férias, providencia." (2)



(1) - José A. Salvador - Livra-te do Medo
(2) - João Afonso dos Santos - Um Olhar Fraterno


(Foto: Zeca no Alentejo em 1979)

Coimbra Musical

RTP Memória - 1978

Neste programa podemos ver e ouvir os testemunhos de: Rui Pato, Manuel Alegre, José Afonso.

José Afonso interpreta os temas: Balada do Outono, Vampiros e Menino do bairro negro. Adriano Correia de Oliveira interpreta a "Trova do vento que passa".

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Rui Pato - Instrumentais

Instrumentais de Rui Pato​ na discografia de José Afonso.

Dos quatro temas instrumentais que estão nos originais e edições dos discos do Zeca, três têm como base a natureza:

- BALADA DO OUTONO e CANTO DA PRIMAVERA

LP Baladas e Canções (1964)

e

- CREPÚSCULO - da autoria do Rui

EP Baladas (editado a partir deste LP). Este instrumental substituiu o tema "Ronda dos Paisanos".

Outro Instrumental

Seleção de Baladas - VAMPIROS - MENINO DO BAIRRO NEGRO - QUADRAS

reedição em 1969 do EP Baladas de Coimbra (1963)

Os instrumentais de Rui Pato reunidos em vídeo.


Asilo Paula Borba - Setúbal

1975
As trabalhadoras, para impugnar a direção gerido nessa altura por freiras, alegando que as freiras comiam que nem abades e que os velhotes passavam fome, foram pedir ajuda ao Centro Cultural de Setúbal. O sentido do movimento era ocupar as instalações e fazer autogestão - Fora com os parasitas que desviam a boa aplicação dos recursos e comprometem o nível de assistência, clamavam os contestantes... E como toda a gente conhecia o Zeca Afonso, foram a casa dele dizer-lhe o que pretendiam.

Se de um lado a razão revolucionária da época exaltava os ânimos "ocupatórios", do outro, os neófitos guardadores de instituições prenhas de exaltações místicas, aguardavam os revoltosos. Um deles - leiteiro de profissão - encorpado, que já várias vezes se tinha travado de razões com o Zeca, aparece de repente com uma pequena machadinha pronto a fazer saltar sangue de quem ousasse transpor a distância que separa a revolução, da pureza freiriana devota do bem estar, não dos idosos que ali estavam, mas das zelosas barrigas abádicas que pretendiam continuar a preservar.

Zeca, perante tal rompante do leiteiro, tropeça ao recuar, valendo-lhe os que seguraram o braço machadeiro, impedindo-o de cumprir a missão a que estava direcionado.
Tudo para a esquadra. Ao chegar a vez de ser ouvido, declarou Zeca para a autoridade e para os autos que não queria apresentar queixa, dando por sanado o incidente.

À saída, cruzou-se com o leiteiro. Sem nenhuma ironia, o homem estendeu-lhe a manápula subitamente afável:

«Sr. Zeca, amigos como dantes!»



Fontes:

http://arquivo.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=6030

"José Afonso - Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos