quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Zeca no 1º Comício do PCP

28 de Junho de 1974 - Campo Pequeno

Foto daqui:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2014/03/11/primeiro-comicio-do-pcp/

na foto: Zeca Afonso, J.J. Letria, Carlos Paredes, Francisco Nicholson, Adriano Correia de Oliveira e Maria do Céu Guerra.

Zeca na primeira pessoa

«Curioso é que nós passamos 40 ou 50 anos de uma vida a fazer determinadas coisas e um dia mais ou menos de repente, sem que renunciemos a nada do que fizemos, apercebemo-nos de que tudo deveria ter sido diferente. É apenas uma vaga sensação que se instala, sem que saibamos defini-la muito bem. No fundo sou muito mais contraditório e supersticioso do que quis admitir ao longo dos anos.»

«... de facto, os jovens por vezes não se destacam do sistema. Limitam-se a constatar que não há saídas. Essa atitude tem de ser modificada e são eles que a têm de modificar. Se for preciso partir a loiça, escavacar tudo isto, acabar com a burocracia para criar uma sociedade diferente, eles que o façam. Partam mesmo a loiça. Mas são eles que o têm de fazer. Não são os homens da minha geração. Os homens e as mulheres. Aliás, sem as mulheres não se pode fazer nada. Pressinto que, de facto, as mulheres vão ter um papel muito importante na futura sociedade, contanto que não tentem imitar os homens no que eles têm de mau...»


Daqui:

http://hijosdelmundo.blogspot.pt/2007/06/zeca-afonso-sempre.html

POEMA CONTRA A RESIGNAÇÃO - José Jorge Letria

A tinta com que se escreve a dor de um povo
não existe na paleta dos dias perfeitos.
É uma tinta que casa o azul do mar
com a palidez de cal das tardes sem esperança,
o verde, o ocre e a cinza com o metal do grito
que a garganta magoadamente abafa.
E quando os filhos perguntam “amanhã como será?”,
que ninguém retome o fio da história
na enseada de assombros em que tantos sonhos naufragaram.
Condenaram-nos a responder pelo número que somos,
tornados estatística de uma raiva adormecida,
cifra negra que nos resume e derrota. Até quando?

Então e as viagens heróicas, as naus afundadas,
as sinuosas rotas de luz, os astrolábios do espanto
e tudo o mais que se perdeu no esquecimento dos mapas?
São perigosos os poetas na hora do incêndio da memória
com o fogo das palavras que não se rendem nem se vendem.
Agora somos a conta que ficou por pagar, colectiva e brutal,
a miséria sussurrada na aflição das noites,
a dormência dos dedos quando chega a hora
de escrever coragem na página de todos os temores.

Mas há uma pátria que se revolta dentro de nós
quando a música interrompe o sono das casas
e proclama que tudo é legítimo menos a resignação.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

José Saramago canta Zeca Afonso

Em 2006 na biblioteca de Saramago em Tías -Lanzarote, Saramago, Pilar del Río, Luís Pastor, João Afonso, Fernando Tordo e outros, cantam Grândola Vila Morena.

"Coro dos Tribunais"

Gravado no Pye Studios, de 30 Novembro a 8 Dezembro 1974. Saiu no Natal.

"No final do ano de 1974, "Coro dos Tribunais" marcava o regresso de Zeca a Londres.

Tradicionalmente um mercado muito protector dos seus músicos de estúdio, os sindicatos ingleses controlavam minuciosamente as fichas técnicas apresentadas para as gravações, impondo as suas próprias listagens de músicos profissionais disponíveis para cada um dos instrumentos. Acontece que Coro dos Tribunais teria uma das instrumentações mais simples da discografia de Zeca Afonso, cuja universalidade (violas, percussões, teclados) punha claramente em xeque a participação dos portugueses. “Não queriam deixar o Vitorino tocar piano porque havia pianistas em Inglaterra”, lembra Carlos Alberto Moniz. “Depois houve alguém, o Zeca ou o José Niza, que terá dito ao sindicato que era uma canção que só o Vitorino é que sabia tocar. Mas a música são só umas três notas...”.

Desconfiados, os ingleses chegam a pedir: “Nesse caso, escrevam a música”. Mas o lado português, “argumentos esfarrapados”, sorri Moniz, desculpa-se com a sua impreparação técnica para fixar a música em pauta. Perante a insistência na utilização de guitarristas, pianistas e percussionistas locais, Fausto faz uso de uma eficaz manobra de diversão, argumentando que se tratava maioritariamente de “instrumentos típicos portugueses que mais ninguém tocava”. “Os instrumentos eram de tal maneira tradicionais que eu tenho lá um solo de [órgão] moog”, ri-se Vitorino. “Era tudo construído in loco, mas atenção que tínhamos uma prática muito grande disso”. “Por vontade dos ingleses”, conclui Moniz, “ninguém de nós tinha tocado”.

Viriato Teles

Na ficha técnica uma curiosidade
Gases e Flatulências – Adriano*, Moniz*, Fausto*, Zeca*

Foto: Zeca, Fausto, Vitorino, Delaporte e Carlos Moniz.


A 3 de Novembro desse ano (1974), Zeca, Fausto e Carlos Alberto Moniz atuaram em Londres, na "Liga do Ensino e da Cultura Portuguesa"

José Manuel Nebot - fotógrafo

"El cantautor portugués Jose Afonso, compositor de «Grandola, Vila Morena», la canción utilizada por los militares demócratas como señal en la radio para iniciar el levantamiento contra la dictadura y la guerra colonial, había actuado anteriormente en Asturias, recuerda el fotógrafo José Manuel Nebot, uno de los organizadores del concierto.

Nebot, militante del PCE y gran dinamizador de la vida cultural y social asturiana, acogió en su casa a Afonso, al que recuerda como «un hombre muy serio y muy riguroso. Yo militaba en el Partido Comunista y él en la extrema izquierda portuguesa, pero llegamos a tener una gran confianza. No tenía nada que ver con otros cantautores que eran tipos más ligeros, más triviales, él era una persona muy interesante y muy comprometida».

El cantautor volvería a actuar en Asturias ya con posterioridad al derrocamiento de la dictadura, convertido en todo un héroe y un símbolo de la lucha por la democracia.

Nebot rememora la actuación de Afonso en el «prao de los Maizales», lugar donde diferentes asociaciones culturales celebraban cada verano la Fiesta de la Cultura, punto de encuentro de todo el antifranquismo asturiano.

Allí ante una multitud que coreó muchas de sus canciones, entre ellas «Grandola, Vila Morena», mundialmente famosa a raíz de la revolución y convertida en un clásico del cancionero de la izquierda internacionalista."

Daqui: http://www.lne.es/siglo-xxi/2009/07/01/recuerdos-asturianos-de-la-primavera-portuguesa/774863.html

O panfleto e as fotos são desta última atuação.

Zeca e a FAPIR


"Eu faço parte da FAPIR (Frente dos Artistas Populares e Intelectuais Revolucionários). Vivo em Setúbal. A maior parte das vezes sou directamente convidado (...) A FAPIR tem uma estrutura que distribuiu os cantores pelos próprios locais. Acontece que eu, além de ser directamente convidado e estabelecer eu próprio as minhas prioridades, o meu raio de acção é aqui no Sul, também vou frequentemente à emigração. E aí na emigração, damos sessões em que fazemos colectas para a Reforma Agrária e outras iniciativas de poder popular, em que explicamos o que é a Reforma Agrária, (...)

Na Bélgica, na Alemanha, na própria Itália gravámos discos selvagens cujo produto se destinará a tal ou tal secretariado de cooperativas da zona da reforma agrária(...) Quando vamos cantar a casas... às «Maison de Jeunesse»... nós até recebemos, de vez em quando, uma pequena remuneração, e era esse o modo de vida dos cantores que me acompanhavam. Outras vezes, não ganhávamos nada, porque nas idas a França e à Alemanha, o dinheiro que trazemos é para esses pequenos apoios ao chamado Poder Popular."

In "Livra-te do Medo" de José A. Salvador


Poesia do Zeca - Rodasse ou não a roda

sábado, 8 de agosto de 2015

«Tive sempre uma paixão por Olhão»

"Eu vivi em Faro, mas tive sempre uma determinada aversão a Faro, porque em Faro dizia-se depreciativamente que «os de Olhão eram uns desgraçados» e que «em Olhão era porta sim, porta não» (...) Eu ia todas as semanas a Olhão, fazia quase o meu roteiro pessoal em Olhão... recordo-me que havia um colega meu que se encarregava de fornecer à PIDE dados sobre as minhas passeatas a Olhão, que eram puramente contemplativas. Infelizmente, eu não tinha actividade política nenhuma.

Andava pelas cabanitas, ia até ao cais e deambulava um pouco por todo o lado.

A canção de Olhão resulta do meu conhecimento pessoal de Olhão."

Fonte: "Livra-te do Medo" de José A. Salvador


Foto: Zeca Afonso (atrás de Francisco Fanhais) numa festa em Pechão - Olhão em 1977


Quando Zeca foi expulso do ensino

Testemunho de Hélida, aluna de Zeca.

(clicar na foto para melhor leitura)

GALIZA A JOSÉ AFONSO

"O 10 de maio de 1972 José Afonso actuaba en Santiago de Compostela, como parte da súa primeira xira por terras galegas na que pasou tamén por Ourense e Lugo. No Burgo das Nacións, cantaba, por primeira vez en directo, a canción que dous anos despois, o 25 de Abril de 1974, convertíase en himno e consigna da Revolución dos Caraveis, "Grândola Vila Morena".

Jose "Zeca" Afonso foi todo un exemplo a seguir, facendo música de calidade con raíz na cultura da súa terra, e con contido comprometido coa realidade político-social da época.

A estreita relación que tivo con Galiza (que deu lugar a innumerabeis concertos) pode sentirse escoitando a súa interpretación musical do "Achégate a Min Maruxa".

O seu último recital no país foi en Vigo, en 1981."

Daqui:
http://www.ghastaspista.com/historia/gz-afonso.php

Zeca Afonso em Vigo com Janita Salomé, Júlio Pereira e Sérgio Mestre.

Fotos do arquivo de Júlio Pereira.

Zeca e o pai

«A marca do meu pai ficou profundamente impressa em mim e de uma maneira geral nos filhos (...) O meu pai era de um encanto excepcional a conversar. O meu pai não encarou muito bem a minha actividade de cantor. Queria um filho doutor. Formalmente teve, mas na prática deu-me para as cantigas... Mais tarde, e um pouco por influência do meu irmão que tem uma atitude de rigor semelhante ao meu pai, foi-me aceitando melhor quando descobriu que as canções eram contra o regime. Nem sempre tive uma boa relação com ele»

Um dia, o pai disse à irmã que gostava de ouvi-lo um bocadinho. Mas nunca ouviu...

Fonte: "Livra-te do Medo" de José A. Salvador

Em 1981 Zeca dedicou ao seu pai e a Edmundo Bettencourt, o álbum "Fados de Coimbra e Outras Canções".

O álbum completo


S. Francisco da Serra

A nove quilómetros de Santiago do Cacém e onze de Grândola. Um ponto minúsculo em qualquer mapa, um lugar cuja História morre habitualmente com os seus habitantes. O ponto tem um nome:

São Francisco da Serra (um refúgio de fim-de-semana pouco conhecido da vida do cantor). E foi aí que, durante algumas curtas temporadas, José Afonso escolheu refugiar-se. Lá, “numa casa isolada, chão de terra, praticamente sem condições algumas”.(...)

Zeca Afonso procurava o convívio com os populares, que mantinham por ele uma admiração da mesma altura que uma respeitosa distância. Por vezes, quando se deslocavam ao chafariz para recolher água, observavam-no a passear pelo montado, de olhar ausente, perdido em conjecturas, quem sabe a garimpar melodias. Depois, na taberna, as
gentes da terra sorviam cada uma das suas palavras com a devoção de quem ouvia um iluminado.

Hoje são muitos ainda que se lembram das noites de cantoria, "até às duas ou três da manhã", com "o Fanhais e o Fausto".

Daqui: http://visao.sapo.pt/jose-afonso-entre-os-outeirinhos-e-a-taberna-da-maria-um-lado-discreto-do-cantor=f524005

e daqui: http://img.rtp.pt/icm/antena1/docs/ef/ef1aea1df9376f5f4f619387aee7e2d6_bf9aaf0a3465d0849bbdb70e6d857293.pdf

domingo, 2 de agosto de 2015