terça-feira, 21 de março de 2017

4 de outubro de 1971

Zeca ia embarcar para Paris onde iria gravar nos estúdios do Castelo de Hérouville, onde entre outros ali gravaram os Pink Floyd, Elton John, David Bowie, Marvin Gaye, os Bee Gees e os bem portugueses Sérgio Godinho e os Petrus Castrus, o álbum "Cantigas do Maio". Foi interpelado no aeroporto pela PIDE/DGS, que lavrou um auto onde refere que «foi feita uma busca à bagagem do arguido (...) e finda ela, foi apreendido o seguinte livro com o título "TERRORISME ET COMMUNISME"; DUAS folhas de papel contendo a letra de uma canção, com o título "NA RUA ANTÓNIO MARIA", UMA folha com a letra de uma canção intitulada "Morte Clériga"; e UMA folha contendo apontamentos manuscritos que começam por "VEJAM BEM".»

Zeca foi preso e libertado dois dias depois.

«Fui interrogado pelo pide Inácio Afonso, um pide que se gabava de vários feitos ao dizer para os presos "com estas mãos matei 40". Interrogaram-me durante o dia sobre a distribuição do manual de guerrilha urbana. Depois libertaram-me. Imagina o estado de espírito com que finalmente consegui chegar a Paris. Ia muito afectado e foi essa condições que gravei o disco».

in "Livra-te do Medo" de José A. Salvador.

O disco foi distinguido em 1978, como o melhor álbum de sempre da música popular portuguesa.

sexta-feira, 17 de março de 2017

8 de Agosto de 1968

José da Conceição, que tinha convidado Zeca para atuar na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense em 17 de maio de 1964, por razões de perseguição da PIDE, foi para Viana do Castelo. Convidou Zeca para atuar no Clube Fluvial Vianenense e foi a 6 de agosto desse ano que Zeca conheceu Manuel Freire que também tinha sido convidado. Rui Pato​ desta vez acompanhou Zeca Afonso (o que não tinha acontecido em Grândola).

A PSP como pidesca que também era, enviou um relatório à PIDE sobre a atuação, «que encerrava um fundo picante para o lado subversivo...» e sobre os cerca de 200 indivíduos «desafectos à actual situação política. A afluência destes indivíduos desafectos certamente deve-se ao facto dos fadistas (sic) em referência, serem já conhecidos nesta região»

Como nada conheciam sobre as letras dos temas que Manuel Freire e Zeca cantavam fizeram esta troca das letras nos temas do Zeca «Catarina do Alentejo que não te viu nascer mas há-de vir o dia que hás-de viver; Ó cavador do Alentejo que há muito tempo não te vi cantar"».

Reparar no traço a vermelho que assinala no texto o nome de Rui Pato e em baixo acrescentam no meio o "de Melo".

quinta-feira, 16 de março de 2017

quarta-feira, 15 de março de 2017

I Encontro da Canção Portuguesa ‒ Lisboa, 29 de Março de 1974

Zeca e Adriano não estavam autorizados a participar neste "Encontro" o que levou a "Casa da Imprensa", mentora deste espetáculo, a escrever, através do Ofício nº 181/74, ao Subsecretário de Estado da Informação e Turismo, fazendo o seguinte reparo: «... no momento da entrega da entrega das letras das composições (para análise da Censura), foi a direcção da Casa da Imprensa surpreendida com a informação de que os artistas José Afonso e Adriano Correia de Oliveira não poderiam cantar no espectáculo. (...) Permitimo-nos, pois, solicitar a VExa. os seus bons ofícios no sentido de o embargo em relação aos artistas (...) seja desta vez levantado, ainda que a título excepcional, com a certeza antecipada que a sua presença no palco do Coliseu terá um carácter estritamente artístico.»

Sabemos que foi ali que Zeca cantou a Grândola que viria a ser, a pouco menos de um mês depois, a 2ª senha que deu origem à saída dos quartéis da tropa, rumo à Revolução de Abril.

Zeca só cantou nesse espectáculo duas canções, a "Grândola" e "Milho Verde".

Em pesquisa, sobre as letras enviadas e não censuradas, haviam outras que Zeca podia ter cantado. Talvez não o tenha feito porque a noite já ia longa ou por outro motivo que me escapa.

Aqui ficam todas as letras de Zeca, que a Casa da Imprensa enviou à Comissão de Exame para serem aprovadas ou não (as aprovadas têm um "A" e as que não podiam ser cantadas um "Reprovado").

A letra de uma das canções era totalmente desconhecida, "O Lago", e foi pena que Zeca não a tenha cantado.

VII Festival Internacional da Canção - Rio de Janeiro

José Afonso

«Levei "A morte saiu à rua" ao Maracanãzinho, procurando afirmar a mensagem política contida na canção. Foi um trabalho completamente inglório. Era o ambiente mais alienatório que tu podes conceber. O que vi nos bastidores foram coisas perfeitamente inconfessáveis. Foi o mais completo gangsterismo. Os prémios já estavam previamente estabelecidos. O americano tinha que ganhar, embora o americano fosse tão ingénuo que nem deu por isso.»

in "Livra-te do Medo" de José A. Salvador

O que eu não sabia é que para além do Zeca esteve outro cantor português, Paulo de Carvalho (convidado pelo "Diário de Lisboa") com o "Maria, Vida Fria" de José Niza e Pedro Osório.

FASE INTERNACIONAL

Portugal: A MORTE SAIU À RUA (José Afonso) José Afonso
Portugal: MARIA, VIDA FRIA (José Niza/Pedro Osório) Paulo de Carvalho

Nem o Zeca nem o Paulo passaram à final.

Em imagens: O cartaz do Festival, o Maracanãzinho, o vencedor do certame (o americano), capa do disco do Paulo de Carvalho com o tema com que concorreu e Zeca com José Ribamar e Jackson do Pandeiro

terça-feira, 14 de março de 2017

A praxe que não aconteceu

"Em Coimbra, a Formosa
germinavam
as vermelhas estrelas
da loucura" *

"Uma noite, da sarna afirmativa, resolvemos (...) formar uma trupe. Uma tesoira no bolso e a colher de pau (...) alguma coisa a servir de moca e fomos postar-nos no Arco de Almedina onde uma lâmpada, algures, maior espessura conferia à escuridão do lugar. (...) Encostámo-nos àquelas pedras, polidas de seculares encostos (...) embrulhados nas capas que eram então uma segunda pele. Às tantas, veio de lá um vulto, dos lados da alta, embuçado também. Era o Zeca. Foi o sinal para desmancharmos o aparato (...) e o Zeca foi em paz. (1)

(...) Por sorte extraordinária ainda não fui incomodado pela mão inexorável da praxe não sei se por já não ter cara de caloiro (...) se por não ser ainda conhecido entre os dótóres (...) (2). Ontem fui abordado por uma trupe à saída do cinema Avenida, mas descansa que desta vez não fiquei sem cabelo por ter alegado que era jogador (da Académica) (...). Por coincidência engraçada vinha na mesma trupe o João. De forma que, se o chefe da trupe me quisesse rapar, o João tinha que me rapar também. (3)



* Fui ao enterro de um leão - Texto e Canções
(1) - "Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos
(2 e 3) - carta de Zeca aos pais e irmã nos anos 50 in "Livra-te do Medo" de José A. Salvador

foto: Zeca, Mariazinha e João

terça-feira, 7 de março de 2017

José Afonso - Ao Passar em Carapeços

Inédito

Cantada no concerto em Maison de la Mutualité - Paris - 10 de novembro de 1970


Zeca alterou em parte a letra de "Ao passar a ribeirinha" música tradicional do Alentejo (em alguns lados aparece como dos Açores).

Carapeços é uma freguesia de Barcelos.


Ao passar em Carapeços
Estava tudo à janela
Estava tudo à janela (bis)

Parece que nunca viram
Gente de fora da terra
Gente de fora da terra (bis)

Ao passar em Carapeços
Estava tudo ao postigo
Estava tudo ao postigo (bis)

Parece que nunca viram
Quem é qu’ andava comigo
Quem é qu’ andava comigo (bis)

Ao passar em Carapeços
Estava tudo ao portão
Estava tudo ao portão (bis)

Parece que nunca viram
A quem dei meu coração
A quem dei meu coração (bis)

Não casei na minha terra
Fui casar em terra alheia
Fui casar em terra alheia (bis)

Ao passar a ribeirinha
Pus o pé, molhei a meia
Pus o pé, molhei a meia (bis)

Ao passar em Carapeços
Estava tudo à janela
Estava tudo à janela (bis)

Parece que nunca viram
Gente de fora da terra
Gente de fora da terra (bis)