quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Um gesto que quis dizer muito

De Rui Pato

"Já depois de ser um cantautor conhecido, aplaudido, ouvido em toda a parte, já profissionalizado, o Zeca veio oferecer o seu "Venham mais cinco" a mim, ao meu pai e à minha mãe , como prova de reconhecimento aos que , contra a vontade de muitos, numa época de enormes dificuldades e de perseguições políticas, em que os verdadeiros amigos e admiradores eram poucos , o convenceram a gravar as suas baladas, lhe trataram dos primeiros contratos, conseguiram improvisar estúdios, lhe trataram das capas dos textos, dos arranjos, dos acompanhamentos, lhe aturaram as neuras e a sua recorrente vontade de desistir... Esta dura fase, que o fez não desistir e continuar, ser o nosso Zeca de hoje, não consta das biografias...

Mas ele era um homem profundamente reconhecido."

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

EP "Cantares de José Afonso" - 1964 - 1ª edição censurada

Sobre este disco:

"Capa do EP CANTARES DE JOSÉ AFONSO. Lisboa: Columbia, E16 40023, 1964, 1.ª edição censurada e retirada de circulação. O pretexto foi a fotografia a preto e branco realizada por Eduardo Varela Pécurto, um dos habitués de A Brasileira, por sugestão e direta orientação de Rocha Pato que preparou um cenário marcado pelo quotidiano humilde de crianças que à época habitavam nuns casebres de madeira junto ao Choupal de Mondego. Um discurso desalinhado, que em tom de denúncia mostrava o que os bilhetes postais tentavam esconder."

Fim de citação

Teria sido mesmo a capa o motivo para a censura do disco ou haveria outra razão para que o lápis azul tivesse funcionado?

Feita a pesquisa, verifiquei que foi o tema "Ó Vila de Olhão" e não a capa o motivo da censura desta 1ª edição, e pelas seguintes razões:

Nesta foto, no disco que estava no arquivo de uma estação de rádio, a faixa "Ó Vila de Olhão" está com lápis azul e riscada com um prego. Se só essa faixa estava riscada com um prego é sinal que as outras três faixas podiam ser tocadas. A capa está intocável, sem o famoso lápis azul, logo não está censurada.



Em 1969, na 2ª edição deste EP, a faixa é substituída por uma versão instrumental interpretada pelo "conjunto de guitarras de Jorge Fontes".


Este vídeo confirma o atrás exposto.



... e o tema censurado.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Livro "Cantares de José Afonso"

Carlos Loures

"Com o Manuel Simões e o Júlio Estudante, criámos em Tomar onde na altura eu trabalhava e vivia, uma pequena editora, a Nova Realidade."

Manuel Simões


Em 1966 sai uma 1ª edição do livro "Cantares de José Afonso" pela Nova Realidade - Tomar

Em 1967 sai uma 2ª edição com texto de Rui Mendes, que estava previamente anunciado para a 1ª edição, extraviou-se algures e só saiu nesta 2ª edição.

"A ideia de reunir em volume as canções de José Afonso nasceu no âmbito do grupo da pastelaria Sírius, da rua da Sofia, em Coimbra, onde chegavam ecos da colecção projectada em Tomar. Foi o Rui Mendes quem a lançou, com o ar de coisa espontânea, mas sentia-se que se tratava de um plano arquitectado e cultivado há algum tempo, à espera de concretização. Pedido o consenso ao autor, então a leccionar na Beira, em Moçambique, a quem se tinha mandado, para eventuais correcções, a transcrição dos textos gravados a que era possível ter acesso, a sua plena adesão ao projecto constituiu uma motivação ainda mais encorajadora, sobretudo pelo envio de materiais inéditos... (...) A primeira edição, correspondendo à fase artesanal da «Nova Realidade» (a mais estimulante e rica de experiências pelo contacto directo com o leitor), foi vendida de mão em mão esgotou-se num curto lapso de tempo."

Rui Mendes


"Dadas as fraternas relações que mantinha com José Afonso, cedo projectei que o primeiro livro da colecção seria a publicação das letras das suas canções. Chamei-lhe Cantares".

Como Carlos Loures refere, a PIDE em maio de 1968 por "despacho destes serviços", o livro "Cantares" foi "PROIBIDO DE CIRCULAR NESTE PAÍS".

A BEM DA NAÇÃO

A foto da capa, é da autoria do jornalista Rocha Pato, pai de Rui Pato​

Do livro 25 anos da AJA.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

“Livro das Dedicatórias”

Ao cimo da Rua das Covas, residia a velha prostituta conhecida por "c... d'aço", designação brejeira de quem escrevera com carvão na parede da modesta casa, assinalando o local onde muitas gerações de estudantes ali tiveram "aulas" de educação sexual.

Com setenta anos, na única janela, fincara os olhos em dois jovens que desciam para a Sé Velha, Zeca e o amigo de peito António dos Santos Silva, ou o Toneca como era conhecido no meio estudantil.

Ao "boa tarde" dado por Zeca, a velha convida-os para entrar. Uma ligeira hesitação mas a um "Não tenham medo que não vos como..." lá decidiram entrar para a pequena sala. Aberta uma lata de biscoitos, acompanhados por um cálice de licor, ali ficaram a conversar coisas do passado dela. Num álbum de fotografias lá estava ela de tricana antiga, noutra com outras raparigas, e outra com vários homens, alguns de capa e batina... "Este aqui era o doutor Mário, muito bom rapazinho! Os meninos como se chamam?

Depois trouxe um livro, o "livro das dedicatórias". Dedicatórias dos seus "alunos" que partiram de Coimbra, ou ao tornarem lá para reuniões de curso, nele tinham escrito mensagens saudosas - "Lembrando aquelas noites dos nossos vinte anos...". "Este é médico em Mangualde... Este era juiz, já morreu... Este é farmacêutico, quando vem a Coimbra passa sempre por cá... E este, adivinham quem é este?" - Assinado Sidónio Pais! O que foi presidente da República. (1) Entre nomes de lentes, médicos, juristas, engenheiros, figurava também o do Cardeal Cerejeira.

"No lago do Breu,
Meninas perdidas eu sei,
Mas só nestas vidas me achei,
No lago do Breu"

(1) Sidónio viria a ser assassinado na estação do Rossio, a 14 de Dezembro de 1918. Foi morto a tiro por José Júlio da Costa, ex-sargento do exército e militante republicano (Fernando Pessoa admirava-o e gostava muito dele enquanto chefe de Estado, chamou-lhe Presidente-Rei).

fontes:

- "Zeca Afonso, antes do mito" de António dos Santos Silva
- blogue "Guitarra de Coimbra" de Octávio Sérgio


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Catarina

Catarina Efigénia Sabino Eufémia (Baleizão, Beja, 13 de Fevereiro de 1928 — Monte do Olival, Baleizão, Beja, 19 de Maio de 1954) foi uma ceifeira portuguesa que, na sequência de uma greve de assalariadas rurais, foi assassinada a tiro, pelo tenente Carrajola da Guarda Nacional Republicana.

José Afonso imortalizou-a no tema "Cantar Alentejano", letra e música de sua autoria.

Do Comité Portugal na Holanda (Tulipa Vermelha) - 1974



Da Revista "O Militante" do PCP nº 172- 1989

O assassinato de Catarina Eufémia é um expressivo documento do que foi o fascismo em Portugal.
A lição da sua vida e da sua morte será guardada pelos tempos fora não só entre os operários agrícolas do Alentejo mas por todo o
país.

Catarina Eufémia

Chamava-se Catarina
o Alentejo a viu nascer

(...) (~) em 1928, na aldeia de Baleizão, concelho de Beja.
Segunda filha de um casal de camponeses pobres, Catarina Eufémia bem cedo experimentou as dificuldades de sobrevivência dos «sem terra» em zona de latifúndio.
Cresceu com os trigos, contou os anos pelas ceifas e por escola teve a lonjura da campina, onde a escrita se fazia com o gadanho e a foice.
Ainda criança perdeu o pai, José Diogo Baleizão, e abandonou as bonecas de trapos, farinha e papel, para colaborar no sustento da família, constituída pela mãe, pela irmã mais velha Maria Eufémia, por ela (Catarina) e a mais nova, Delmira da Assunção.
A adolescência passou-a nas terras do Monte Olival, propriedade do agrário Fernando Nunes, gerando lucros com fome. calor, sede e magra jorna.
Aos 17 anos casou com um conterrâneo, o «Carmona», então trabalhador da CUF, e muda-se para o Barreiro onde nasceria a primeira filha do casal, Maria Catarina. Porém, o companheiro de Catarina é despedido e o agregado familiar volta para Baleizão.

Corriam, na época, tempos de grandes fomes e heróicas lutas. O proletariado agrícola alentejano fervia de revolta face às aviltantes condições de trabalho, sendo remetido a uma dieta espartana de pão duro, alho e bacalhau seco.
A aldeia de Baleizão não destoava na paisagem económico-social do Alentejo dos anos 50, e Catarina Eufémia, que se recusara a aceitar Um salário de miséria, discutido com José Vedor, feitor de Fernando Nunes, palmilhava diariamente 12 quilómetros até ao Monte Campano, por a jorna ser ali mais alta do que no Monte Olival.

Em 1954, a luta do campesinato alentejano ganhou novas e redobradas energias

É nesta lida, dia a dia mais pesada, que se vai gerando o futuro António Gaspar, segundo filho e primeiro rapaz de Catarina, nascido em Baleizão.
Já experimentada na resistência à ofensiva de fome e exploração, Catarina Eufémia ingressa no PCP com 24 anos e, pouco depois, fazendo parte do Comité Local, lidera a organização das mulheres da sua terra.
Entretanto, o marido fora colocado em Quintos, como cantoneiro, e para lá se encaminha Catarina onde, no Outono de 1953, nasce o seu terceiro rebento, o José Adolfo. Contudo, não havendo condições de permanência na «casa dos cantoneiros», Mãe Catarina regressa com a sua prole a Baleizão.


Em 1954, a luta do campesinato alentejano ganhou novas e redobradas energias, como, nos dá conta «o camponês», publicado em Março desse ano: «A participação das mulheres camponesas na luta por melhores jornas é um grande passo em frente no reforçamento da Unidade. Em muitos lados, elas vão à Praça de Jornas, fazem parte de Comissões com os homens e constituem também as suas próprias Comissões. Esta rica experiência deve ser seguida, chamando as camponesas à luta pela conquista de melhores jornas nas ceifas».
Tal como em anos anteriores, os agrários e o Governo aprontavam-se para imporem o pagamento de jornas baixas e impedirem, por qualquer meio, a resistência dos explorados. Porém, a tais manobras e intimidações se opunha, cada vez com mais firmeza, a luta unida e organizada dos trabalhadores.
E assim que, por todo o lado, se vão multiplicando amplas comissões de unidade, com homens e mulheres, nas Praças de Jornas, em herdades, montes e ranchos, conduzindo, sem tréguas, a luta contra o fascismo e os latifundiários.

Entretanto, já em Fevereiro desse ano, a GNR insultara uma comissão de 25 mulheres em Vale de Vargo e espancara uma delas, tendo o Tribunal de Serpa condenado 3 camponesas a 18 dias de prisão.

Nos campos crescia a agitação social e Baleizão não era obviamente diferente dos demais baluartes de resistência. Aí, perante a recusa sistemática do agrário Fernando Nunes em pagar a jorna pretendida para a apanha das ‘favas, os camponeses deliberaram entrar em greve e, a partir de sábado (15 de Maio), ninguém foi trabalhar.

Dado o impasse da situação, na terça-feira seguinte (18 de Maio), um grupo de camponeses onde figurava Catarina Eufémia, vai ao Monte Olival para tentar negociar, mais uma vez com o feitor, o aumento. Em vão!
Contudo, no dia seguinte, o conflito iria sofrer dramática evolução, pois Fernando Nunes apostara quebrar a Unidade dos grevistas e mandara buscar um rancho a Penedo Gordo, pagando 18$00 aos homens e 12$00 às mulheres.

A notícia correu célebre entre as gentes de Baleizão, que, perante esta acção divisionista, decidem ir falar aos trabalhadores do rancho de Penedo Gordo.
A justeza da posição reúne 300 baleizoeiros que tomam o caminho do Monte Olival, no intuito de esclarecerem o rancho de fora quanto aos motivos porque lutavam a exortá-los à Unidade. «Não foram precisas muitas falas para os trabalhadores se entenderem. Estavam todos de acordo, não se trabalhava com salários de fome».(2)

No entanto, alguém previra o natural acordo e solidariedade, e teimando em vergar a vontade popular, chamara a GNR, que prontamente cerca o rancho do Penedo Gordo, obrigando-o a trabalhar sob a ameaça das armas e pela jorna determinada pelo «senhor da terra».
O Povo de Baleizão, ao tomar conhecimento da provocação, avança unido para a herdade, determinado a demover o grupo «contratado», mas depara com forte barreira de guardas republicanos que, de espingardas aperradas, lhe impede a marcha.
Perante a pertinaz resistência do proletariado agrícola, inabalavelmente convicto dos seus direitos e firme nos objectivos, os guardas deixam passar um grupo de 15 mulheres lideradas por Catarina Eufémia.
Grávida e com o pequenito José Adolfo, de 8 meses, ao colo, esta avança decidida, confiante e sem temor, para o diálogo.
E então que, detrás de um monte de favas, lhe salta traiçoeiramente ao caminho o facínora tenente Carrajola que, recém-chegado de Beja com reforços, lhe aponta uma pistola-metralhadora, perguntando: «O que queres, bruta?»
«O que eu quero é pão para matar a fome aos meus filhos! »
A resposta soou em três tiros desfechados à queima-roupa.
Mortalmente ferida, tombou de pé Catarina Eufémia, vítima da besta fascista.

(...) Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
(...)C)

Morreu de pé e sem medo «como deve saber morrer um membro do Partido à frente das massas, encabeçando a luta de classe». (3)
No dia 19 de Maio de 1954, às 11 horas da manhã, Catarina Eufémia, mulher esforçada e mãe corajosa, destemida comunista, ultrapassou a morte e, vencendo o tempo, reergueu-se em vermelha bandeira dentro de cada um de nós.

Catarina — orgulho do proletariado agrícola alentejano!
Catarina — símbolo de firmeza e exemplo de militante do Partido Comunista Português!
Catarina Eufémia — a-sempre-viva na nossa memória!

Porque...

(...) Quem viu matar Catarina
Não perdoa a quem matou! (‘)~


(‘) AFONSO, José — do poema «Cantar Alentejo»
(2) COELHO, José Dias — A Resistência em Portugal, 2. ed., Porto, Inova, 1974, p. 20
(3) CUNHAL, Álvaro — Homenagem a Catarina Eufémia, in «Avante!», n. 2 (24 de Maio de 1974)

«Militante» nº172 de 1989

Daqui:

http://www.pcp.pt/actpol/temas/pcp/catarina/index.htm

http://www.pcp.pt/actpol/temas/pcp/catarina/militante-1989.htm

Documento da GNR que relata a morte de Catarina Eufémia

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Canto Livre - 12-12-1981

Canto Livre com Zeca Afonso no comício de encerramento da manifestação contra o governo AD/Balsemão.


(Pinto Balsemão foi primeiro-ministro entre janeiro de 1981 e junho de 1983)

Com Janita Salomé, Serginho e Júlio Pereira

Fonte: CGTP-IN