segunda-feira, 5 de junho de 2017

Otelo fala de Zeca

Otelo Saraiva de Carvalho só conheceu e deu um “abraço emocionado” a José Afonso depois do 25 de Abril de 1974, o golpe que quis que tivesse como senha uma “canção do Zeca”.

“Podia ser o ‘Venham mais cinco’ ou ‘Traz outro amigo também’. Acabou por ser a ‘Grândola’, porque as outras estavam no índex da censura”, recordou Otelo em entrevista à agência Lusa, em que fala sobre “o turbilhão de amizade” que o uniu ao cantor que o apoiou nas presidenciais de 1976 (e nas de 1980), quando teve 16,46%, mais do que Octávio Pato, apoiado pelo PCP. Foram as canções de Zeca e o seu génio a cantar “música de intervenção de caráter político” que o “estimularam enormemente” na sua consciencialização política (...)

Entrámos num turbilhão de amizade, de companheirismo muito grande”, lembrou, apelidando “o Zeca o irmão que gostaria de ter tido” e não teve.

“Foi uma grande campanha e sempre com o Zeca ao meu lado. Ele foi um companheiro notável”, sintetizou, afirmando que também o ouvia como conselheiro político. O próprio músico recorda, na entrevista para livro biográfico de José António Salvador “O Rosto da Utopia” (Edições Afrontamento): “As propostas de Otelo foram uma alternativa revolucionária praticável para este país. Podia ter sido um caminho para evitar que este país seja um porta-aviões do imperialismo americano, do subimperislismo europeu (sobretudo o alemão).”

O militar de Abril emociona-se ao recordar a última vez que esteve com José Afonso. Otelo estava preso em Caxias, em 1986, e o cantor, já muito doente, foi “despedir-se” de si, meses antes de morrer. Como o compositor de “Venham Mais Cinco” não podia subir ao parlatório, o diretor da prisão autorizou que fosse o militar a vir, a sentar-se num carro — ele e Zeca nos bancos da frente, as duas companheiras atrás. José Afonso, o cantor, tinha dúvidas se teria valido a pena “a luta” desde os tempos da ditadura, e achava que o seu trabalho musical iria ser esquecido.

“Aí, quase me exaltei. ‘Ó Zeca, pá, nunca digas uma asneira dessas. Tu foste um gajo notável e o que fizeste vai perdurar, pá, até ao fim do mundo'”, recordou. “Tu disseste profundamente às pessoas coisas, aquilo com que elas alimentaram uma esperança grande numa alteração, numa renovação, numa liberdade. Isso é inapagável, é inapagável'”, concluiu Otelo.

daqui:

http://observador.pt/2017/02/21/jose-afonso-foi-otelo-quem-escolheu-o-musico-para-cantar-senha-do-25-de-abril/

foto: Zeca na campanha de Otelo à Presidência em 1976

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulheres de Abril - Maria Vitória Vaz Pato

Eu sou natural do Porto, e aí fiz os meus estudos. A minha mãe, que se licenciara em Farmácia em 1928, era uma católica praticante, sem cultura política e, por isso, naturalmente receptiva à propaganda do regime de Salazar.

Data dessa época (anos 50) o início da minha crítica à Igreja, que culminou nos anos 70 por um processo de abandono da prática religiosa seguido, mais tarde, após madura reflexão, de uma rotura profunda com o conteúdo da fé cristã, seus dogmas, fundamentos, assim como posições político-sociais.

(...)

A minha casa passou a ser o local de compilação e armazenamento do “Direito à Informação” (1)

O trabalho durava até de madrugada, na sala, com as persianas e os cortinados fechados, para não se descobrir luz do exterior, e falávamos com discrição. Geralmente ouvíamos baixinho um disco “revolucionário” de 45 rotações, Zeca Afonso era o mais habitual. Estes discos eram habitualmente apreendidos pela PIDE nas discotecas, mas por “conhecimentos especiais” havia sempre um de nós a conseguir que um editor lhe “vendesse/cedesse um disco”. As editoras discográficas mantinham sempre escondido um stock de uns tantos discos que vendiam depois a pessoas de confiança. Rodávamos o disco até à exaustão e cantarolávamos baixinho: “Os vampiros - eles comem tudo, eles comem tudo...”

(1) - O conteúdo dos DI, (...) tinha como objectivo reunir e difundir informações que não apareciam nos jornais por serem cortadas pela censura, dando–se especial atenção às notícias sobre a luta anticolonial. Saíram 18 números de 1963 a 1968.

daqui:

http://www.esquerda.net/artigo/mulheres-de-abril-testemunho-de-maria-vitoria-vaz-pato/48379



terça-feira, 30 de maio de 2017

Cantares - edição clandestina

Da 1ª edição clandestina - Edição SCIP - AAEE de Lisboa / A.E.I.S.T. - 1969

"Incontornável edição clandestina (esforço da vanguarda das associações de estudantes), substancialmente diferente da da Nova Realidade (Tomar, 1966), ganha a importância da perseguição movida contra tudo o que levasse a assinatura de Zeca Afonso. O regime fascista foi sempre muito claro em relação ao Autor de Grândola, Vila Morena: havia que silenciá-lo!"

daqui:

http://frenesilivros.blogspot.pt/2016/04/cantares.html

Menino do Bairro Negro

Nota: Embora as fotos apresentem meninos negros, a letra nada tem a ver com a negritude da pele como Zeca nos explica aqui:

«O conhecimento do Porto de todas estas realidades é que me deu o tema do – Menino do Bairro Negro – Expliquei mais tarde que negritude de que falava a canção, não dizia respeito à cor da pele, mas à condição de meninos explorados diagnosticados por José Castro no seu livro Geopolítica da Fome .»

Fotografias do moçambicano Ricardo Rangel

(as fotos, como refere Alexandre Pomar, teriam sido enviadas pelo Zeca de Lourenço Marques com a Autobiografia e as notas sobre os poemas)

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Zeca e o Rock

"O rock é uma música aceite, não só pela juventude burguesa, como até pela juventude operária. É o gosto dominante… Antes do rock português, há uns anos atrás, havia o chamado nacional-cançonetismo, imposto pelo regime como música representativa do nosso génio. O rock que se canta para aí, pelo menos, teve esta virtude: ajudou a liquidar o nacional-cançonetismo.

Quando apareceu a chamada balada, por exemplo, também se caiu num certo cansaço. As canções eram um bocado primárias, à base de dois tons ou três na viola. E tudo passava por balada… É possível que esses sujeitos, dentro do condicionamento existente – que o rock é, de facto, um padrão praticamente instituído – consigam, daqui a uns dois ou três anos, fazer coisas com um pouco mais de imaginação. Sem terem de aleijar a língua portuguesa para a meterem dentro dos compassos do rock. Que é uma coisa que se ouve com frequência."



Entrevista a Maria Eduarda publicada na edição nº145 de 9 de dezembro de 1981 do jornal “em marcha”

Foto: Zeca com Júlio Pereira em 1983

terça-feira, 23 de maio de 2017

“Com as minhas tamanquinhas”

Júlio Pereira

"O Zeca viveu de uma maneira muito forte o 25 de novembro. Está expresso de uma maneira criativa num disco que, infelizmente, os media acharam que era o pior disco daquele ano: “Com as minhas tamanquinhas”, onde imita o Eanes e faz um tema a um coronel do 25 de Abril - “Como se faz um canalha”.

Um disco que é talvez o mais panfletário. É curioso, passados este anos todos, imaginares que, naquela altura, o país já não ia muito à bola com o Zeca.

Como é que os media conseguem considerar que é o pior disco ano quando inclui temas intemporais, como o “Alípio de Freitas”, “Teresa Torga”, “Os Índios da Meia-Praia”...?

Mas não nos podemos esquecer que, a partir desta época, acontecem duas coisas em simultâneo: a degradação da sua saúde e o que o país está a viver, a nível político e social.

O Zeca foi-se muito abaixo nessa altura. Sendo seu amigo, ia partilhando todo o seu quotidiano. Com o agravar da doença, a única coisa que nos preocupava, aos amigos, era mantê-lo animado."

daqui:

http://www.esquerda.net/dossier/grande-admiracao-pela-juventude/47150

Júlio com Zeca na Festa do Avante - 1980

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Carta de Zeca à direção da SMOG

José da Conceição, um dos membros da direção da Música Velha (assim era designada a Sociedade Musical Operária Grandolense), foi quem convidou e acolheu Zeca Afonso no evento realizado a 17 de maio de 1964:

«O espectáculo foi de facto excepcional. (...) Há um episódio engraçado, porque no programa aparece o nome de Júlio Abreu, que era o nome de um ciclista. O tipo da tipografia devia gostar muito de ciclismo, ou devia estar a falar em ciclismo quando estava a fazer o cartaz, porque o certo é que se enganou e, em vez de Fernando Alvim, pôs o nome de Júlio Abreu. Também aparece lá o nome de Rui Pato, que também não foi. Como o Zeca cantava sempre com o Rui Pato, ficámos convencidos que não precisávamos de o convidar, porque o Zeca trataria disso. Quando o Zeca chegou, não havia Rui Pato, mas não houve problema porque ele se acompanhou a si próprio.»

Fim de citação

In Zeca Afonso "Livra-te do Medo" de José A. Salvador.

Rui Pato​ nesse ano iria fazer 18 anos (nasceu a 5 de junho de 1946) e, ao contrário do que disse José Conceição (a memória ao fim de alguns anos atraiçoa-nos), o nome do Rui foi referido como podemos ler nesta carta que Zeca enviou, após confirmação do evento. Nela, envia o contacto à direção da Música Velha, do pai do Rui, Albano da Rocha Pato. Tal não deve ter acontecido e assim Rui não acompanhou o Zeca nesta sua deslocação a Grândola.


terça-feira, 16 de maio de 2017

Achégate A Mim, Maruxa

Júlio Pereira

"Uma vez, em Vigo, ao pé de um hotel onde nos hospedámos, estávamos numa espécie de uma ponte e o Zeca diz-me: “Eh pá, se eu tivesse aqui o gravador...”. Fui ao hotel buscar o gravador. O Zeca gravou a música toda do “Achégate A Mim, Maruxa”, que tinha a letra da Rosalía de Castro. Pensei: “Isto é que é ser génio”. Recordo-me de ter falado noutra altura com o Zeca sobre a genialidade em geral e de ele estar totalmente em desacordo com essa história da genialidade. Para ele, a genialidade era o trabalho. Mas, naquele dia, deu-me um amostra de que genialidade é outra coisa. Vi, pela primeira vez, alguém criar algo sem esforço, sem voltar atrás, sem trabalho. A música saiu exatamente como a gravei. Mas acredito na tese do Zeca, as coisas nascem do nosso trabalho, e é muito raro alguém compor uma música toda sem qualquer esforço e emenda."

daqui:

http://www.esquerda.net/dossier/grande-admiracao-pela-juventude/47150

foto - Vigo - com Janita Salomé, Júlio Pereira e Sérgio Mestre