quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Lições de pai

Testemunho de Joana Afonso

Mais do que impor regras, o que José Afonso transmitia aos filhos eram valores de partilha e de respeito pelo outro, “mas também queria o quarto arrumado” (Prosema III)*, conta Joana Afonso, 47 anos. Lembra-se de uma disputa entre ela e o irmão Pedro, com menos quatro anos e meio, que acabou com um brinquedo novo no lixo. “Não me recordo de qual era o brinquedo, mas estávamos naquelas discussões: ‘É meu’, ‘é meu’, ‘não é nada, é meu.’ Ele veio e deitou-o fora. ‘Não é de ninguém. Nunca mais quero ouvir essa discussão’.” Resultou até hoje. “Não tivemos mais discussões dessas. O meu pai não suportava o egoísmo. Era tudo na base de: ou é de todos ou não é de nenhum!”

Joana Afonso ri-se ao recordar um outro episódio em que ambos, Joana e Pedro, não queriam sair de casa porque ia “dar qualquer coisa na televisão”. E fizeram finca-pé. O desfecho foi a televisão ir passar uma temporada na casa da porteira. “O meu pai achava que devíamos aproveitar o tempo livre na rua, devíamos sair e passear sempre que pudéssemos. Ele detestava que a televisão nos impedisse de fazer outras coisas bem mais importantes. Se fosse hoje, seria mais difícil, com toda a oferta televisiva que temos. Mas éramos todos espectadores assíduos do Vasco Granja!"

Não se recorda de castigos, nem de zangas, só de um ou outro raspanete. “Nem sequer se zangou comigo quando chumbei um ano.” Mas duas palmadas vêm-lhe à memória. A primeira já esqueceu o motivo, a segunda lembra-se bem. Foi numa viagem de carro para Espanha, em que as “tolices” dos dois irmãos (ambos filhos de Zélia Afonso) fizeram estragos: “A ‘lamparina’ que levei foi a gota de água de uma viagem supostamente tranquila e prazenteira, que eu e o meu irmão conseguimos infernizar com uma série de tropelias.”

O episódio, na opinião de Joana, até “foi cómico”. E descreve-o assim: “Depois de alguns dias de viagem stressante, há um parvalhão que decide encostar o nosso carro e pedir contas porque dois miúdos lhe faziam [o gesto de] cornos. O meu pai passou-se com o tipo, que era obviamente um idiota.” No entanto, a palmada que Joana recebeu não veio logo. “Depois de muitos quilómetros percorridos em silêncio e ambiente pesado, levei um estalo. Ele já devia estar de saco cheio, por razões óbvias.”

Vivendo em casas sempre cheias de gente e movimento, “com muitos amigos a entrar e a sair a qualquer hora”, Joana Afonso diz que não havia rigidez no cumprimento daquelas regras das famílias mais tradicionais, com horas certas para as refeições ou para deitar. “Tivemos uma educação muito livre e permissiva, no bom sentido. Só nas questões de ordem ética é que o meu pai era intransigente.” E hoje dá-se conta de que reproduz com o seu filho, José (cinco anos), os mesmos princípios. “Sigo ideais muito semelhantes, embora o contexto seja outro.”

Daqui


Foto: Zeca e a filha Joana

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Acez Osnofa

Os jornais da época ostentavam a advertência «Visado pela Comissão de Censura». Os jornais diários mais visados pelo regime eram em Lisboa o República e o Diário de Lisboa. No Porto era o Primeiro de Janeiro.


O nome de Zeca Afonso estava proibido nos jornais mas não as fotos. Para contornar a censura, "A Mosca” (Suplemento do “Diário de Lisboa”) publicou uma foto que eram duas – meia cara do Fanhais e meia do Zeca a 13 de setembro de 1969.


A partir desta edição as fotos passaram também a serem controladas pela censura.

Para colmatar a ausência forçada de Afonso, foi inserida uma entrevista com Rui Pato: o «acompanhante habitual do nosso primeiro cantor de baladas» (ainda ele, estudante de Medicina) que abordou o «caso que melhor» conhecia, o do intérprete de «Cantares de Andarilho».

in José Afonso - Fotobiografias Século XX


A 20 de setembro de 1969 n'A Mosca aparece pela 1ª vez Acez Osnofa (anagrama de Zeca Afonso).

Brilhante a parte final da entrevista sobre Acez Osnofa:

- O leitor conhece?
Basta ler ao contrário






Quadras Populares - Velhice

sábado, 4 de outubro de 2014

Zeca em Belmonte - 1938/39

"Gastão era perfeito/ conduzido por seu dono/ em sonolências afeito/ às picadas dos mosquitos" GASTÃO ERA PERFEITO, in Venham mais Cinco (1973)

O dealbar dos anos 40 vem encontrar o "menino zequinha" como porta-bandeira, a fazer a saudação nazi, de calças à golfe, bivaque e um cinturão com um grande S (farda da Mocidade Portuguesa), a marcar o passo no pelotão de miúdos pelas ruas de Belmonte. Na terra e na família pontificava o tio Filomeno (que lhe inspirou a canção em epígrafe), presidente da Câmara, comandante da Legião, homem de ardente vassalagem a Salazar, admirador de Franco e germanófilo. "Londres comme Cartago sera détruite!", assim soavam as emissões nocturnas na "telefonia" lá de casa. Quase todas as noites partia um comboio para a Alemanha hitleriana. Era o negócio do volfrâmio. Mas disto, Zeca, com 10 anos, ainda não percebia nada. Só sabia que aquele regresso à metrópole (por causa dos estudos) foi sentido como um degredo.

«Lembro-me de andar a marchar fardado à Mocidade Portuguesa à frente dos outros, como porta-bandeira. Era o meu tio que me metia nisso. À noite, estávamos à volta da braseira e o meu tio mandava-me deitar. Mas nunca conseguia dormir, porque se ouviam os ruídos do rádio sempre que ele procurava sintonizar a Rádio Paris colaboracionista. O locutor, no final das emissões, declarava solene: "Londres será destruída como Cartago."»

«Eu ainda andei de mão esticada a gritar "Quem vive? Carmona, Carmona, Carmona", "Quem manda? Salazar, Salazar, Salazar!"»

Ainda por cima, sendo ele ali visto como "um menino agasalhado", sobrinho do senhor doutor, que não podia participar nos jogos com os outros miúdos da vila.

Fez aí a quarta classe, espartilhado entre a chateza dos dias, o acanhamento da paisagem, a monotonia das missas, paixonetas por declarar, e uma tia que lhes racionava a água, de guarda ao jarro, atrás da porta, "como um índio sioux": "O pior ano da minha vida". Da escola guardava recordações traumatizantes, "enxurros monumentais de porrada". Zeca era distraído, patologicamente distraído. O professor tinha o hábito de o suspender pelas orelhas, "como se aquela tormentosa ascensão tivesse o mérito inverso de o fazer descer à terra", conta João Afonso: "A imensidade africana que Zeca trazia na cabeça e nos sentidos já não cabia nos parâmetros concretos do didactismo escolar."

Fontes e textos: José Afonso "Cronologia da Vida e Obra; "Livra-te do Medo" - José A. Salvador; "Os Lugares de Zeca Afonso" - Visão.

Fotos: Zeca fardado à MP e com o tio Filomeno que, segundo o irmão João Afonso, era um exímio dançarino.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

"Mundo da Canção" - Zeca Afonso

Foi logo no seu 1º número que surgiu Zeca Afonso, para além do Padre Fanhais e outros. Uma revista que veio dar uma pedrada no charco face ao nacional cançonetismo "porreiro" vigente no Estado Novo. Foi uma lufada de ar fresco no panorama musical cinzento existente, dando a conhecer ao seu público, os que posteriormente foram designados por cantores de intervenção. Objetos de censura nunca deixaram de lutar por um país novo e livre de mordaças.

Hoje faço menção de lhes agradecer tudo o que fizeram durante anos pelos nossos cantores, pelo "nosso" Zeca e por tantos outros que nas suas canções nos mostravam um caminho novo, o caminho da Liberdade.

"A revista MC-MUNDO DA CANÇÃO surgiu em Dezembro de 1969, tendo como fundador e editor Avelino Tavares. Apresentou-se "com o objectivo de lutar contra o cançonetismo apodrecido e ajudar a construir uma canção diferente."

Obrigado Avelino e todos os que contribuiram para a grandeza desta nossa Revista.

Com a devida vénia, do nº1 desta revista - Zeca Afonso, ainda um ilustre desconhecido do grande público.

Zeca na Tropa - 1953/1955

Cumpre a recruta em Mafra, sendo depois colocado num quartel em Coimbra e faz manobras em Santa Margarida.

"Ao cair da madrugada/ No quartel da guarda/ Senhor General/ Mande embora a sentinela/ Mande embora e não lhe faça mal" RONDA DOS PAISANOS, in Baladas e Canções (1967)

A tropa foi o buraco negro na sua biografia. Um tempo vácuo. Aborrecia-se mortalmente, não atinava com a culatra, com o percutor, o dente de armar, nem com formaturas e rotinas pautadas a toque de clarinete...

"Fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar. Na formatura era um infantilismo pegado. Cachaças uns aos outros, ao mesmo tempo que se dizia "seu cagão". Era uma coisa indescritível. A mim pediram-me para sair da caserna porque tinha pesadelos e berrava que nem um chibo.
Fui aspirante miliciano no RI20 e aí notabilizei-me por alguns deslizes de caráter técnico."

Limitou-se a criar anticorpos, nas palavras do irmão, "contra todas as formas de constrangimento pessoal". A incompatibilidade com as tecnologias era quase genética. Nunca usou relógio, só muito tarde conseguiu acertar nos botões REC e PLAY do gravador, inventou um sistema de pautas para consumo próprio. E quando, anos mais tarde, em Moçambique, se meteu a tirar a carta de condução, o instrutor, depois de tantos alheamentos e ausências, voltou-se para ele e perguntou: "O senhor é assim a modos que poeta, não é?" Outra vez, entrou em casa, dirigiu-se ao frigorífico e sentou-se a comer pudim.

E estranhou: a mulher não costumava fazer pudim... Tinha entrado na casa de um vizinho.

Fontes e textos: José Afonso "Cronologia da Vida e Obra; "Livra-te do Medo" - José A. Salvador; "Os Lugares de Zeca Afonso" - Visão.

Foto: Diário de Lisboa