De Rui Pato
O Zeca, sempre que tinha espectáculos de responsabilidade ou tinha gravações, era um problema... Como devem saber ele era um hipocondríaco severo, sempre com a mania das doenças e sempre a tomar medicamentos. Eu, como aluno de medicina e com acesso às amostras gratuitas de medicamentos, era um mártir!
Estava sempre a queixar-se que estava sem voz, que assim não conseguiria gravar ou mesmo actuar e isso para mim era um susto! Quando os medicamentos não resultavam...a nossa salvação de última hora era o Dr. Adolfo Rocha (Miguel Torga); subíamos as escadinhas do consultório dele, ali na Portagem, onde o Torga, com toda a paciência fazia um cocktail da lavra dele, uma misturada que depois era atirada, borrifada, para as cordas vocais do Zeca ali , de boca aberta, míope sem os óculos, a olhar esbugalhadamente para a "pera" de borracha vermelha onde estava escondido o segredo que o salvaria...
Para ilustrar esta historieta, vai um postal dos muitos em que quase sempre como "post scriptum"ele pedia fármacos ...e o consultório do Adolfo Rocha de onde o Zeca ao descer as escadas me torturava com uns vocalizes e me dizia animado:" já estou porreiro!"
(Fotos: um postal da minha colecção e uma foto roubada ao Carlos Ferrão)
quinta-feira, 8 de novembro de 2018
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
Na Dura Crosta
De Rui Pato
UM INÉDITO DE LUIS ANDRADE PARA O ZECA
Luis Andrade Pignatelli, que nos anos 60 andava aqui por Coimbra tentando afirmar-se como poeta, era bastante amigo do Zeca e também meu amigo. Teve a primeira participação num tema do Zeca em 1963 com "As Pombas", mas contrariamente ao que muito já vi escrito e dito , não colaborou como poeta mas sim como autor da música; a letra da canção "As Pombas" é do Zeca e a melodia é do Luis Andrade. No ano seguinte o Zeca faz uma música para um poema do Luis ("Elegia") e...alguns anos depois o Zeca vem a musicar outro poema do Luís que é o "Era de Noite e Levaram". Mas, ainda nos anos 60, o Luis fez um poema (no café "A Brasileira" numa pequena folha de papel), para ser cantado e musicado pelo Zeca Afonso, com o título "Na Dura Crosta". Fui eu que guardei o poema (porque o Zeca não conseguia guardar nada...) por várias vezes tentei que o Zeca lhe pegasse, ele prometia que sim...mas nunca o fez e, eu, que até já me tinha esquecido...encontrei agora esse papel amarelecido com este poema inédito do Luis Andrade Pignatelli, feito para o Zeca...que nunca o chegou a musicar.
UM INÉDITO DE LUIS ANDRADE PARA O ZECA
Luis Andrade Pignatelli, que nos anos 60 andava aqui por Coimbra tentando afirmar-se como poeta, era bastante amigo do Zeca e também meu amigo. Teve a primeira participação num tema do Zeca em 1963 com "As Pombas", mas contrariamente ao que muito já vi escrito e dito , não colaborou como poeta mas sim como autor da música; a letra da canção "As Pombas" é do Zeca e a melodia é do Luis Andrade. No ano seguinte o Zeca faz uma música para um poema do Luis ("Elegia") e...alguns anos depois o Zeca vem a musicar outro poema do Luís que é o "Era de Noite e Levaram". Mas, ainda nos anos 60, o Luis fez um poema (no café "A Brasileira" numa pequena folha de papel), para ser cantado e musicado pelo Zeca Afonso, com o título "Na Dura Crosta". Fui eu que guardei o poema (porque o Zeca não conseguia guardar nada...) por várias vezes tentei que o Zeca lhe pegasse, ele prometia que sim...mas nunca o fez e, eu, que até já me tinha esquecido...encontrei agora esse papel amarelecido com este poema inédito do Luis Andrade Pignatelli, feito para o Zeca...que nunca o chegou a musicar.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
A MEIRIM *
À sombra do que está
Há quem incline a cabeça
Há quem na vertical
Diga que sim não está mal
Minha tia era
Dessa razão
Dizia humilde contrita
Não subas
Ao parapeito de Judas
E o vendilhão era recto
Não pretendia ser mais
Que um funcionário correcto
Pois na Instrução
O César tinha razão
Só não tinha a tia dele
Verdade diga-se
E sede
Da pura apocalíptica
Depois quem lhe fez a cama
Foi um menino de mama
*escrito na prisão de Caxias
E quem era este Meirim ao qual Zeca dedicou este texto?
Joaquim Meirim foi um treinador português que alinhou sempre à esquerda no campo partidário. Foi embarcadiço, trabalhou em restaurantes e hotéis e começou a treinar nos anos 60, o Oriental, a CUF e a maior glória como treinador foi alcançada com o Varzim atingindo na época 69/70, o 6º lugar com os mesmos pontos do Guimarães (5º) e Barreirense (4º). Só não conseguiu ir às competições europeias porque nos últimos dois/três jogos a findar o campeonato, foi treinar o Braga que estava aflito nos últimos lugares. Acabou o Braga por descer e o Varzim ressentiu-se dessa saída de Meirim (perdeu o acesso à Europa perdendo com o Benfica na Luz, por 1-0).
Os seus métodos de treino no Varzim eram verdadeiramente espartanos. Os jogadores corriam na areia grossa da praia da Póvoa, muitas vezes carregando toros de madeira. Uma equipa de respeito que tinha um grande guarda redes, Benje (o melhor do mundo - segundo Meirim, e que o levou a dizer, o que na época era um sacrilégio, "que se Benje não fosse preto seria o guarda-redes da seleção portuguesa"). Outra frase que ficou conhecida como revolucionária «A derrota é a mãe de todas as vitórias» e "uma bola à trave ou aos postes, é um remate torto".
No ano seguinte, Meirim foi treinar o Belenenses. Mandou encomendar as faixas de campeão antes do campeonato começar. Mas a experiência correu mal e, devido aos maus resultados, foi despedido.
Treinou mais três vezes o Varzim, mas já não foi a mesma coisa sinal, que nunca se deve voltar aos lugares onde se foi feliz.
Há quem incline a cabeça
Há quem na vertical
Diga que sim não está mal
Minha tia era
Dessa razão
Dizia humilde contrita
Não subas
Ao parapeito de Judas
E o vendilhão era recto
Não pretendia ser mais
Que um funcionário correcto
Pois na Instrução
O César tinha razão
Só não tinha a tia dele
Verdade diga-se
E sede
Da pura apocalíptica
Depois quem lhe fez a cama
Foi um menino de mama
*escrito na prisão de Caxias
E quem era este Meirim ao qual Zeca dedicou este texto?
Joaquim Meirim foi um treinador português que alinhou sempre à esquerda no campo partidário. Foi embarcadiço, trabalhou em restaurantes e hotéis e começou a treinar nos anos 60, o Oriental, a CUF e a maior glória como treinador foi alcançada com o Varzim atingindo na época 69/70, o 6º lugar com os mesmos pontos do Guimarães (5º) e Barreirense (4º). Só não conseguiu ir às competições europeias porque nos últimos dois/três jogos a findar o campeonato, foi treinar o Braga que estava aflito nos últimos lugares. Acabou o Braga por descer e o Varzim ressentiu-se dessa saída de Meirim (perdeu o acesso à Europa perdendo com o Benfica na Luz, por 1-0).
Os seus métodos de treino no Varzim eram verdadeiramente espartanos. Os jogadores corriam na areia grossa da praia da Póvoa, muitas vezes carregando toros de madeira. Uma equipa de respeito que tinha um grande guarda redes, Benje (o melhor do mundo - segundo Meirim, e que o levou a dizer, o que na época era um sacrilégio, "que se Benje não fosse preto seria o guarda-redes da seleção portuguesa"). Outra frase que ficou conhecida como revolucionária «A derrota é a mãe de todas as vitórias» e "uma bola à trave ou aos postes, é um remate torto".
No ano seguinte, Meirim foi treinar o Belenenses. Mandou encomendar as faixas de campeão antes do campeonato começar. Mas a experiência correu mal e, devido aos maus resultados, foi despedido.
Treinou mais três vezes o Varzim, mas já não foi a mesma coisa sinal, que nunca se deve voltar aos lugares onde se foi feliz.
domingo, 21 de outubro de 2018
Paulo Ferreira - Saudades de Coimbra
Zeca Afonso. Nasci em 1970. O Zeca Afonso faleceu em 1987. Dele podia colocar quase tudo como referência. Desde as coisas mais engajadas, que antes de tudo vejo como uma referência histórica que ajuda a compreender um determinado tempo, até composições mais líricas, sem outro comprometimento que não a beleza do poema e da música.
Quando em Janeiro de 1990 rumei a Coimbra levava na minha bagagem algum do património cultural da cidade, e mais propriamente da Academia. A minha paixão pela Canção de Coimbra começou com o "Dr. José Afonso". Algum tempo depois de permanecer na cidade acabei por compreender a importância seminal que o disco de José Afonso teve no ressurgir "desenvergonhado" do fado de Coimbra. Em 1981, data da edição deste disco, era preciso, ainda, muita coragem para alguém com a dimensão do Zeca Afonso, com a sua perspectiva social, cultural e política, editar um disco exclusivamente com fados de Coimbra. Ainda que a título póstumo, admirei-lhe a coragem por quebrar com alguns clichés que colocavam rótulos no fado de Coimbra. Admirei-lhe a coragem de, depois de ter liderado o movimento da balada, num corte "epistemológico" com o fado "sebenteiro" e perpetuador de imagens de boémia e descomprometimento social do estudante, ter regressado à Alma Mater das suas primeiras gravações.
Assim, e porque também vem a propósito de uma certa Coimbra em que num contexto de gentes, tempo e lugar, me traz gratas memórias...
"Saudades de Coimbra"
Quando em Janeiro de 1990 rumei a Coimbra levava na minha bagagem algum do património cultural da cidade, e mais propriamente da Academia. A minha paixão pela Canção de Coimbra começou com o "Dr. José Afonso". Algum tempo depois de permanecer na cidade acabei por compreender a importância seminal que o disco de José Afonso teve no ressurgir "desenvergonhado" do fado de Coimbra. Em 1981, data da edição deste disco, era preciso, ainda, muita coragem para alguém com a dimensão do Zeca Afonso, com a sua perspectiva social, cultural e política, editar um disco exclusivamente com fados de Coimbra. Ainda que a título póstumo, admirei-lhe a coragem por quebrar com alguns clichés que colocavam rótulos no fado de Coimbra. Admirei-lhe a coragem de, depois de ter liderado o movimento da balada, num corte "epistemológico" com o fado "sebenteiro" e perpetuador de imagens de boémia e descomprometimento social do estudante, ter regressado à Alma Mater das suas primeiras gravações.
Assim, e porque também vem a propósito de uma certa Coimbra em que num contexto de gentes, tempo e lugar, me traz gratas memórias...
"Saudades de Coimbra"
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
Zeca e a vida académica
A vida dos estudos motivava-o pouco, enquanto a vida académica de praxes, repúblicas, serenatas, copos, boémia, e futebol na Briosa o fascina muito mais.
“Cheguei a fazer praxe quando era semiputo e andei em andanças às boleias. Ia pendurado nos comboios até à Figueira da Foz para a Queima das Fitas. Fiz pegas de caras na garraiada depois de emborcar aí um litro de vinho para arranjar coragem”.
Sobre o apoio à Académica:
“Considerava uma obrigação, um dever, quase um autêntico juramento, uma autêntica profissão de fé defender a chamada Briosa. Quando essa defesa assumia aspectos heróicos de pancadaria, então também entrava porque entendia que desse modo cumpria condignamente o meu papel”
“Cheguei a fazer praxe quando era semiputo e andei em andanças às boleias. Ia pendurado nos comboios até à Figueira da Foz para a Queima das Fitas. Fiz pegas de caras na garraiada depois de emborcar aí um litro de vinho para arranjar coragem”.
Sobre o apoio à Académica:
“Considerava uma obrigação, um dever, quase um autêntico juramento, uma autêntica profissão de fé defender a chamada Briosa. Quando essa defesa assumia aspectos heróicos de pancadaria, então também entrava porque entendia que desse modo cumpria condignamente o meu papel”
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
Relatórios do posto da PIDE em Setúbal
Os relatórios do posto da PIDE em Setúbal enviados para a sede, em Lisboa, revelam a vigilância permanente a que Zeca estava sujeito.
“Além de bastante conhecido pelas canções subversivas que compõe e interpreta”, está referenciado em inúmeras reuniões clandestinas, desenvolve larga atividade nos meios ‘culturais’, ‘democráticos’, e recebe em casa muitos indivíduos estranhos, alguns deles estrangeiros, principalmente espanhóis. Sai de casa normalmente depois do almoço, instala-se na esplanada do Café Central, junta imediatamente à sua volta larga assistência de ‘jovens’, aos quais vai insinuando a sua doutrina, provocando a maior desorientação nesse meio”.
daqui:
http://www.jornalmapa.pt/2017/02/11/panegirico-jose-afonso/
“Além de bastante conhecido pelas canções subversivas que compõe e interpreta”, está referenciado em inúmeras reuniões clandestinas, desenvolve larga atividade nos meios ‘culturais’, ‘democráticos’, e recebe em casa muitos indivíduos estranhos, alguns deles estrangeiros, principalmente espanhóis. Sai de casa normalmente depois do almoço, instala-se na esplanada do Café Central, junta imediatamente à sua volta larga assistência de ‘jovens’, aos quais vai insinuando a sua doutrina, provocando a maior desorientação nesse meio”.
daqui:
http://www.jornalmapa.pt/2017/02/11/panegirico-jose-afonso/
terça-feira, 25 de setembro de 2018
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