quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Na Dura Crosta

De Rui Pato

UM INÉDITO DE LUIS ANDRADE PARA O ZECA

Luis Andrade Pignatelli, que nos anos 60 andava aqui por Coimbra tentando afirmar-se como poeta, era bastante amigo do Zeca e também meu amigo. Teve a primeira participação num tema do Zeca em 1963 com "As Pombas", mas contrariamente ao que muito já vi escrito e dito , não colaborou como poeta mas sim como autor da música; a letra da canção "As Pombas" é do Zeca e a melodia é do Luis Andrade. No ano seguinte o Zeca faz uma música para um poema do Luis ("Elegia") e...alguns anos depois o Zeca vem a musicar outro poema do Luís que é o "Era de Noite e Levaram". Mas, ainda nos anos 60, o Luis fez um poema (no café "A Brasileira" numa pequena folha de papel), para ser cantado e musicado pelo Zeca Afonso, com o título "Na Dura Crosta". Fui eu que guardei o poema (porque o Zeca não conseguia guardar nada...) por várias vezes tentei que o Zeca lhe pegasse, ele prometia que sim...mas nunca o fez e, eu, que até já me tinha esquecido...encontrei agora esse papel amarelecido com este poema inédito do Luis Andrade Pignatelli, feito para o Zeca...que nunca o chegou a musicar.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

A MEIRIM *

À sombra do que está
Há quem incline a cabeça
Há quem na vertical
Diga que sim não está mal
Minha tia era
Dessa razão
Dizia humilde contrita
Não subas
Ao parapeito de Judas
E o vendilhão era recto
Não pretendia ser mais
Que um funcionário correcto
Pois na Instrução
O César tinha razão
Só não tinha a tia dele
Verdade diga-se
E sede
Da pura apocalíptica
Depois quem lhe fez a cama
Foi um menino de mama

*escrito na prisão de Caxias

E quem era este Meirim ao qual Zeca dedicou este texto?

Joaquim Meirim foi um treinador português que alinhou sempre à esquerda no campo partidário. Foi embarcadiço, trabalhou em restaurantes e hotéis e começou a treinar nos anos 60, o Oriental, a CUF e a maior glória como treinador foi alcançada com o Varzim atingindo na época 69/70, o 6º lugar com os mesmos pontos do Guimarães (5º) e Barreirense (4º). Só não conseguiu ir às competições europeias porque nos últimos dois/três jogos a findar o campeonato, foi treinar o Braga que estava aflito nos últimos lugares. Acabou o Braga por descer e o Varzim ressentiu-se dessa saída de Meirim (perdeu o acesso à Europa perdendo com o Benfica na Luz, por 1-0).

Os seus métodos de treino no Varzim eram verdadeiramente espartanos. Os jogadores corriam na areia grossa da praia da Póvoa, muitas vezes carregando toros de madeira. Uma equipa de respeito que tinha um grande guarda redes, Benje (o melhor do mundo - segundo Meirim, e que o levou a dizer, o que na época era um sacrilégio, "que se Benje não fosse preto seria o guarda-redes da seleção portuguesa"). Outra frase que ficou conhecida como revolucionária «A derrota é a mãe de todas as vitórias» e "uma bola à trave ou aos postes, é um remate torto".

No ano seguinte, Meirim foi treinar o Belenenses. Mandou encomendar as faixas de campeão antes do campeonato começar. Mas a experiência correu mal e, devido aos maus resultados, foi despedido.

Treinou mais três vezes o Varzim, mas já não foi a mesma coisa sinal, que nunca se deve voltar aos lugares onde se foi feliz.

domingo, 21 de outubro de 2018

Paulo Ferreira - Saudades de Coimbra

Zeca Afonso. Nasci em 1970. O Zeca Afonso faleceu em 1987. Dele podia colocar quase tudo como referência. Desde as coisas mais engajadas, que antes de tudo vejo como uma referência histórica que ajuda a compreender um determinado tempo, até composições mais líricas, sem outro comprometimento que não a beleza do poema e da música.

Quando em Janeiro de 1990 rumei a Coimbra levava na minha bagagem algum do património cultural da cidade, e mais propriamente da Academia. A minha paixão pela Canção de Coimbra começou com o "Dr. José Afonso". Algum tempo depois de permanecer na cidade acabei por compreender a importância seminal que o disco de José Afonso teve no ressurgir "desenvergonhado" do fado de Coimbra. Em 1981, data da edição deste disco, era preciso, ainda, muita coragem para alguém com a dimensão do Zeca Afonso, com a sua perspectiva social, cultural e política, editar um disco exclusivamente com fados de Coimbra. Ainda que a título póstumo, admirei-lhe a coragem por quebrar com alguns clichés que colocavam rótulos no fado de Coimbra. Admirei-lhe a coragem de, depois de ter liderado o movimento da balada, num corte "epistemológico" com o fado "sebenteiro" e perpetuador de imagens de boémia e descomprometimento social do estudante, ter regressado à Alma Mater das suas primeiras gravações.

Assim, e porque também vem a propósito de uma certa Coimbra em que num contexto de gentes, tempo e lugar, me traz gratas memórias...

"Saudades de Coimbra"

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Zeca e a vida académica

A vida dos estudos motivava-o pouco, enquanto a vida académica de praxes, repúblicas, serenatas, copos, boémia, e futebol na Briosa o fascina muito mais.

“Cheguei a fazer praxe quando era semiputo e andei em andanças às boleias. Ia pendurado nos comboios até à Figueira da Foz para a Queima das Fitas. Fiz pegas de caras na garraiada depois de emborcar aí um litro de vinho para arranjar coragem”.

Sobre o apoio à Académica:

“Considerava uma obrigação, um dever, quase um autêntico juramento, uma autêntica profissão de fé defender a chamada Briosa. Quando essa defesa assumia aspectos heróicos de pancadaria, então também entrava porque entendia que desse modo cumpria condignamente o meu papel”

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Relatórios do posto da PIDE em Setúbal

Os relatórios do posto da PIDE em Setúbal enviados para a sede, em Lisboa, revelam a vigilância permanente a que Zeca estava sujeito.

“Além de bastante conhecido pelas canções subversivas que compõe e interpreta”, está referenciado em inúmeras reuniões clandestinas, desenvolve larga atividade nos meios ‘culturais’, ‘democráticos’, e recebe em casa muitos indivíduos estranhos, alguns deles estrangeiros, principalmente espanhóis. Sai de casa normalmente depois do almoço, instala-se na esplanada do Café Central, junta imediatamente à sua volta larga assistência de ‘jovens’, aos quais vai insinuando a sua doutrina, provocando a maior desorientação nesse meio”.

daqui:

http://www.jornalmapa.pt/2017/02/11/panegirico-jose-afonso/

terça-feira, 25 de setembro de 2018

"Está-se mesmo a ver quem é..."

Quando se dizia "Está-se mesmo a ver quem é..." e toda a gente sabia quem era.

DESCULPA LÁ, Ó ZECA!

José Afonso já estava doente. Era 1984, salvo erro. Zeca e Zélia, a mulher, haviam mudado de Setúbal para uma casa em Azeitão. “Era o único sítio sossegado!”, conta Zélia. Vigarice de empreiteiro, os esgotos mal feitos provocaram uma espécie de fossa a céu aberto que chegava até ao quintal da casa de Zeca. O cheiro e os corrimentos afectavam o bairro inteiro. A informação chega ao jornal Tal&Qual, então dirigido por José Rocha Vieira. Fraudes e trapaças com saneamento básico eram mato na altura (e ainda hoje). Zeca era (é e será)) uma referência da Música e da Democracia. Zeca doente com fossa à porta? Claro que é notícia. Com a bondosa conivência de Zélia, vai-se falar com o indignado Zeca, que impõe uma condição. “Eu moro aqui, mas isso não é notícia! Somos muitos moradores no bairro! É preciso denunciar esta vergonha! São todos prejudicados! Não quero que fales de mim...” Zeca era assim. Ainda que usado e abusado por muita gente e instituições, nunca condescendeu nem pactuou com esquemas de favores. Tímido, porém extrovertido, saltava que nem fera quando lhe tocavam nos princípios mais profundos.

Quando morreu, em 1987, saíram à rua, em Setúbal, muitos milhares de pessoas. Foi enterrado, a seu pedido, numa campa rasa do cemitério de Nossa Senhora da Piedade. A Sociedade Portuguesa de Autores, liderada por José Jorge Letria, quer agora que os restos mortais de Zeca sejam trasladados para o Panteão Nacional. A família, com Zélia à frente, está contra a pomposa honraria. Francisco Fanhais, amigo e companheiro, já disse: “Deixem-no estar! Está onde quis estar!”

Ao brade Zeca fica como Património Musical da Humanidade, tal como a de Amália Rodrigues. Os dois nunca se haviam encontrado cara a cara até certo dia de 1984. Amália era considerada, por muita gente de Esquerda, como uma cantora do regime do Estado Novo. Muita coisa os separava, mas no primeiro aniversário do Clube de Jornalistas, Eugénio Alves teve a ideia de juntar os dois, durante um jantar em Lisboa. Para Eugénio, jornalista, não foi fácil convencer o amigo Zeca. Jorge Cobanco, homem da Rádio, encarregou-se de convencer Amália. Eugénio não disse a Zeca que Amália iria estar presente. E foi Amália que foi ter com Zeca. “Estava com medo da reacção dele!”, conta Eugénio Alves. Amália, comovida, e ao mesmo tempo receosa, pergunta-lhe: “Zeca! Acha que eu canto bem?” Zeca responde: “Então se a senhora não canta bem, quem é que canta bem?!” Terá sido a primeira e a última vez que Zeca e Amália se encontraram ao vivo. Amália está hoje, legitimamente, no Panteão.

Zeca ficou muito chateado quando viu o título da notícia no Tal&Qual: “Fossa à porta de Zeca Afonso”.

Desculpa lá, ó Zeca!

Victor Bandarra - jornalista