Os relatórios do posto da PIDE em Setúbal enviados para a sede, em Lisboa, revelam a vigilância permanente a que Zeca estava sujeito.
“Além de bastante conhecido pelas canções subversivas que compõe e interpreta”, está referenciado em inúmeras reuniões clandestinas, desenvolve larga atividade nos meios ‘culturais’, ‘democráticos’, e recebe em casa muitos indivíduos estranhos, alguns deles estrangeiros, principalmente espanhóis. Sai de casa normalmente depois do almoço, instala-se na esplanada do Café Central, junta imediatamente à sua volta larga assistência de ‘jovens’, aos quais vai insinuando a sua doutrina, provocando a maior desorientação nesse meio”.
daqui:
http://www.jornalmapa.pt/2017/02/11/panegirico-jose-afonso/
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
terça-feira, 25 de setembro de 2018
DESCULPA LÁ, Ó ZECA!
José Afonso já estava doente. Era 1984, salvo erro. Zeca e Zélia, a mulher, haviam mudado de Setúbal para uma casa em Azeitão. “Era o único sítio sossegado!”, conta Zélia. Vigarice de empreiteiro, os esgotos mal feitos provocaram uma espécie de fossa a céu aberto que chegava até ao quintal da casa de Zeca. O cheiro e os corrimentos afectavam o bairro inteiro. A informação chega ao jornal Tal&Qual, então dirigido por José Rocha Vieira. Fraudes e trapaças com saneamento básico eram mato na altura (e ainda hoje). Zeca era (é e será)) uma referência da Música e da Democracia. Zeca doente com fossa à porta? Claro que é notícia. Com a bondosa conivência de Zélia, vai-se falar com o indignado Zeca, que impõe uma condição. “Eu moro aqui, mas isso não é notícia! Somos muitos moradores no bairro! É preciso denunciar esta vergonha! São todos prejudicados! Não quero que fales de mim...” Zeca era assim. Ainda que usado e abusado por muita gente e instituições, nunca condescendeu nem pactuou com esquemas de favores. Tímido, porém extrovertido, saltava que nem fera quando lhe tocavam nos princípios mais profundos.
Quando morreu, em 1987, saíram à rua, em Setúbal, muitos milhares de pessoas. Foi enterrado, a seu pedido, numa campa rasa do cemitério de Nossa Senhora da Piedade. A Sociedade Portuguesa de Autores, liderada por José Jorge Letria, quer agora que os restos mortais de Zeca sejam trasladados para o Panteão Nacional. A família, com Zélia à frente, está contra a pomposa honraria. Francisco Fanhais, amigo e companheiro, já disse: “Deixem-no estar! Está onde quis estar!”
Ao brade Zeca fica como Património Musical da Humanidade, tal como a de Amália Rodrigues. Os dois nunca se haviam encontrado cara a cara até certo dia de 1984. Amália era considerada, por muita gente de Esquerda, como uma cantora do regime do Estado Novo. Muita coisa os separava, mas no primeiro aniversário do Clube de Jornalistas, Eugénio Alves teve a ideia de juntar os dois, durante um jantar em Lisboa. Para Eugénio, jornalista, não foi fácil convencer o amigo Zeca. Jorge Cobanco, homem da Rádio, encarregou-se de convencer Amália. Eugénio não disse a Zeca que Amália iria estar presente. E foi Amália que foi ter com Zeca. “Estava com medo da reacção dele!”, conta Eugénio Alves. Amália, comovida, e ao mesmo tempo receosa, pergunta-lhe: “Zeca! Acha que eu canto bem?” Zeca responde: “Então se a senhora não canta bem, quem é que canta bem?!” Terá sido a primeira e a última vez que Zeca e Amália se encontraram ao vivo. Amália está hoje, legitimamente, no Panteão.
Zeca ficou muito chateado quando viu o título da notícia no Tal&Qual: “Fossa à porta de Zeca Afonso”.
Desculpa lá, ó Zeca!
Victor Bandarra - jornalista
Quando morreu, em 1987, saíram à rua, em Setúbal, muitos milhares de pessoas. Foi enterrado, a seu pedido, numa campa rasa do cemitério de Nossa Senhora da Piedade. A Sociedade Portuguesa de Autores, liderada por José Jorge Letria, quer agora que os restos mortais de Zeca sejam trasladados para o Panteão Nacional. A família, com Zélia à frente, está contra a pomposa honraria. Francisco Fanhais, amigo e companheiro, já disse: “Deixem-no estar! Está onde quis estar!”
Ao brade Zeca fica como Património Musical da Humanidade, tal como a de Amália Rodrigues. Os dois nunca se haviam encontrado cara a cara até certo dia de 1984. Amália era considerada, por muita gente de Esquerda, como uma cantora do regime do Estado Novo. Muita coisa os separava, mas no primeiro aniversário do Clube de Jornalistas, Eugénio Alves teve a ideia de juntar os dois, durante um jantar em Lisboa. Para Eugénio, jornalista, não foi fácil convencer o amigo Zeca. Jorge Cobanco, homem da Rádio, encarregou-se de convencer Amália. Eugénio não disse a Zeca que Amália iria estar presente. E foi Amália que foi ter com Zeca. “Estava com medo da reacção dele!”, conta Eugénio Alves. Amália, comovida, e ao mesmo tempo receosa, pergunta-lhe: “Zeca! Acha que eu canto bem?” Zeca responde: “Então se a senhora não canta bem, quem é que canta bem?!” Terá sido a primeira e a última vez que Zeca e Amália se encontraram ao vivo. Amália está hoje, legitimamente, no Panteão.
Zeca ficou muito chateado quando viu o título da notícia no Tal&Qual: “Fossa à porta de Zeca Afonso”.
Desculpa lá, ó Zeca!
Victor Bandarra - jornalista
quarta-feira, 19 de setembro de 2018
África é uma pátria mítica para mim
"África é uma pátria mítica para mim, antes de ser pátria política, uma África revolucionária e socialista."
"Nunca me conformei com a ideia de ter abandonado África, e só mais tarde é que verdadeiramente troquei África por Coimbra. Troquei todas essas recordações, uma espécie de liberdade física que gozava em África, pelo mito de Coimbra"
foto - 1933, Zeca em Silva Porto (Bié) - Angola.
"Nunca me conformei com a ideia de ter abandonado África, e só mais tarde é que verdadeiramente troquei África por Coimbra. Troquei todas essas recordações, uma espécie de liberdade física que gozava em África, pelo mito de Coimbra"
foto - 1933, Zeca em Silva Porto (Bié) - Angola.
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
Gravação de "Menina dos Olhos Tristes"
De Rui Pato
Foi há precisamente meio século.
Fotografias captadas pelo meu amigo, colega de profissão e guitarrista José Ferraz , da viagem de "foguete" entre Coimbra e Lisboa que eu fiz com o José Afonso em finais do ano de 1968 para gravar ainda nessa tarde aquele pequeno disco de duas canções apenas (mas que canções!!!) "Menina dos Olhos Tristes" que, além deste tema na face A, na face B tem o "Canta Camarada Canta". Embora a minha memória nem sempre cumpra a sua obrigação, julgo que este disco foi "apalavrado" à pressa com o Sr. Arnaldo Trindade e gravado excepcionalmente, ao contrário dos seguintes (que foram em Campolide na Polyson) nos estúdios de Paço D'Arcos da Valentim de Carvalho. Como podem ver pela expressão dos "figurantes"... (eu a roer as unhas, hábito que nunca tive e o Zeca crispado...) havia alguma preocupação já que a tarefa era complicada, arriscada e...poderia até ser uma viagem em vão.
Foi há precisamente meio século.
Fotografias captadas pelo meu amigo, colega de profissão e guitarrista José Ferraz , da viagem de "foguete" entre Coimbra e Lisboa que eu fiz com o José Afonso em finais do ano de 1968 para gravar ainda nessa tarde aquele pequeno disco de duas canções apenas (mas que canções!!!) "Menina dos Olhos Tristes" que, além deste tema na face A, na face B tem o "Canta Camarada Canta". Embora a minha memória nem sempre cumpra a sua obrigação, julgo que este disco foi "apalavrado" à pressa com o Sr. Arnaldo Trindade e gravado excepcionalmente, ao contrário dos seguintes (que foram em Campolide na Polyson) nos estúdios de Paço D'Arcos da Valentim de Carvalho. Como podem ver pela expressão dos "figurantes"... (eu a roer as unhas, hábito que nunca tive e o Zeca crispado...) havia alguma preocupação já que a tarefa era complicada, arriscada e...poderia até ser uma viagem em vão.
terça-feira, 28 de agosto de 2018
Faro - casa da D. Maria
Faro - Zeca deu aulas em Faro em 1958/1959 e de 1960 a 1964, ano que partiu para Moçambique.
"Percorri algumas casas dos bairros limítrofes de Faro (...), os lugares mais baratos (...). Fui parar à casa da D. Maria, situada numa rua um pouco excêntrica e muito próxima do cais onde partem os barcos para a ilha..." "Foi uma fase de euforia extremamente gratificante e das coisas mais felizes da minha vida. Escrevi na altura 'Tenho barcos tenho remos', a propósito de um barco que utilizávamos. Nesse 'Barco do Diabo' fazíamos viagens fantásticas ou fantasmas (...) discutíamos pontos de vista vários. Tínhamos a mania de andar a pé até Olhão, até Quarteira e ainda mais longe."
foto Rui Pato - Casa da D. Maria
"Percorri algumas casas dos bairros limítrofes de Faro (...), os lugares mais baratos (...). Fui parar à casa da D. Maria, situada numa rua um pouco excêntrica e muito próxima do cais onde partem os barcos para a ilha..." "Foi uma fase de euforia extremamente gratificante e das coisas mais felizes da minha vida. Escrevi na altura 'Tenho barcos tenho remos', a propósito de um barco que utilizávamos. Nesse 'Barco do Diabo' fazíamos viagens fantásticas ou fantasmas (...) discutíamos pontos de vista vários. Tínhamos a mania de andar a pé até Olhão, até Quarteira e ainda mais longe."
foto Rui Pato - Casa da D. Maria
segunda-feira, 27 de agosto de 2018
UM APARELHO COM MUITA HISTÓRIA
De Rui Pato
Este é o gravador que veio do Porto a Coimbra , numa 4L, em 1962 e voltou em 1963 para gravar os dois primeiros EPs de baladas do José Afonso nos claustros abandonados do mosteiro de São Jorge de Milreus, ele e eu...sozinhos com o técnico, ( o Menino de oiro em 62 e Vampiros em 63) Este aparelho está guardado e bem conservado na cidade da Maia, na empresa EDISCO.
Agradeço esta foto ao meu amigo José Ferraz de Oliveira que encontrou a relíquia quando estava neste estúdio a gravar um CD de originais de Jorge Cravo com poemas de Vitor Matos e Sá.
Este é o gravador que veio do Porto a Coimbra , numa 4L, em 1962 e voltou em 1963 para gravar os dois primeiros EPs de baladas do José Afonso nos claustros abandonados do mosteiro de São Jorge de Milreus, ele e eu...sozinhos com o técnico, ( o Menino de oiro em 62 e Vampiros em 63) Este aparelho está guardado e bem conservado na cidade da Maia, na empresa EDISCO.
Agradeço esta foto ao meu amigo José Ferraz de Oliveira que encontrou a relíquia quando estava neste estúdio a gravar um CD de originais de Jorge Cravo com poemas de Vitor Matos e Sá.
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