Júlio Pereira
"O Zeca viveu de uma maneira muito forte o 25 de novembro. Está expresso de uma maneira criativa num disco que, infelizmente, os media acharam que era o pior disco daquele ano: “Com as minhas tamanquinhas”, onde imita o Eanes e faz um tema a um coronel do 25 de Abril - “Como se faz um canalha”.
Um disco que é talvez o mais panfletário. É curioso, passados este anos todos, imaginares que, naquela altura, o país já não ia muito à bola com o Zeca.
Como é que os media conseguem considerar que é o pior disco ano quando inclui temas intemporais, como o “Alípio de Freitas”, “Teresa Torga”, “Os Índios da Meia-Praia”...?
Mas não nos podemos esquecer que, a partir desta época, acontecem duas coisas em simultâneo: a degradação da sua saúde e o que o país está a viver, a nível político e social.
O Zeca foi-se muito abaixo nessa altura. Sendo seu amigo, ia partilhando todo o seu quotidiano. Com o agravar da doença, a única coisa que nos preocupava, aos amigos, era mantê-lo animado."
daqui:
http://www.esquerda.net/dossier/grande-admiracao-pela-juventude/47150
Júlio com Zeca na Festa do Avante - 1980
terça-feira, 23 de maio de 2017
quarta-feira, 17 de maio de 2017
Carta de Zeca à direção da SMOG
José da Conceição, um dos membros da direção da Música Velha (assim era designada a Sociedade Musical Operária Grandolense), foi quem convidou e acolheu Zeca Afonso no evento realizado a 17 de maio de 1964:
«O espectáculo foi de facto excepcional. (...) Há um episódio engraçado, porque no programa aparece o nome de Júlio Abreu, que era o nome de um ciclista. O tipo da tipografia devia gostar muito de ciclismo, ou devia estar a falar em ciclismo quando estava a fazer o cartaz, porque o certo é que se enganou e, em vez de Fernando Alvim, pôs o nome de Júlio Abreu. Também aparece lá o nome de Rui Pato, que também não foi. Como o Zeca cantava sempre com o Rui Pato, ficámos convencidos que não precisávamos de o convidar, porque o Zeca trataria disso. Quando o Zeca chegou, não havia Rui Pato, mas não houve problema porque ele se acompanhou a si próprio.»
Fim de citação
In Zeca Afonso "Livra-te do Medo" de José A. Salvador.
Rui Pato nesse ano iria fazer 18 anos (nasceu a 5 de junho de 1946) e, ao contrário do que disse José Conceição (a memória ao fim de alguns anos atraiçoa-nos), o nome do Rui foi referido como podemos ler nesta carta que Zeca enviou, após confirmação do evento. Nela, envia o contacto à direção da Música Velha, do pai do Rui, Albano da Rocha Pato. Tal não deve ter acontecido e assim Rui não acompanhou o Zeca nesta sua deslocação a Grândola.
«O espectáculo foi de facto excepcional. (...) Há um episódio engraçado, porque no programa aparece o nome de Júlio Abreu, que era o nome de um ciclista. O tipo da tipografia devia gostar muito de ciclismo, ou devia estar a falar em ciclismo quando estava a fazer o cartaz, porque o certo é que se enganou e, em vez de Fernando Alvim, pôs o nome de Júlio Abreu. Também aparece lá o nome de Rui Pato, que também não foi. Como o Zeca cantava sempre com o Rui Pato, ficámos convencidos que não precisávamos de o convidar, porque o Zeca trataria disso. Quando o Zeca chegou, não havia Rui Pato, mas não houve problema porque ele se acompanhou a si próprio.»
Fim de citação
In Zeca Afonso "Livra-te do Medo" de José A. Salvador.
Rui Pato nesse ano iria fazer 18 anos (nasceu a 5 de junho de 1946) e, ao contrário do que disse José Conceição (a memória ao fim de alguns anos atraiçoa-nos), o nome do Rui foi referido como podemos ler nesta carta que Zeca enviou, após confirmação do evento. Nela, envia o contacto à direção da Música Velha, do pai do Rui, Albano da Rocha Pato. Tal não deve ter acontecido e assim Rui não acompanhou o Zeca nesta sua deslocação a Grândola.
terça-feira, 16 de maio de 2017
Achégate A Mim, Maruxa
Júlio Pereira
"Uma vez, em Vigo, ao pé de um hotel onde nos hospedámos, estávamos numa espécie de uma ponte e o Zeca diz-me: “Eh pá, se eu tivesse aqui o gravador...”. Fui ao hotel buscar o gravador. O Zeca gravou a música toda do “Achégate A Mim, Maruxa”, que tinha a letra da Rosalía de Castro. Pensei: “Isto é que é ser génio”. Recordo-me de ter falado noutra altura com o Zeca sobre a genialidade em geral e de ele estar totalmente em desacordo com essa história da genialidade. Para ele, a genialidade era o trabalho. Mas, naquele dia, deu-me um amostra de que genialidade é outra coisa. Vi, pela primeira vez, alguém criar algo sem esforço, sem voltar atrás, sem trabalho. A música saiu exatamente como a gravei. Mas acredito na tese do Zeca, as coisas nascem do nosso trabalho, e é muito raro alguém compor uma música toda sem qualquer esforço e emenda."
daqui:
http://www.esquerda.net/dossier/grande-admiracao-pela-juventude/47150
foto - Vigo - com Janita Salomé, Júlio Pereira e Sérgio Mestre
"Uma vez, em Vigo, ao pé de um hotel onde nos hospedámos, estávamos numa espécie de uma ponte e o Zeca diz-me: “Eh pá, se eu tivesse aqui o gravador...”. Fui ao hotel buscar o gravador. O Zeca gravou a música toda do “Achégate A Mim, Maruxa”, que tinha a letra da Rosalía de Castro. Pensei: “Isto é que é ser génio”. Recordo-me de ter falado noutra altura com o Zeca sobre a genialidade em geral e de ele estar totalmente em desacordo com essa história da genialidade. Para ele, a genialidade era o trabalho. Mas, naquele dia, deu-me um amostra de que genialidade é outra coisa. Vi, pela primeira vez, alguém criar algo sem esforço, sem voltar atrás, sem trabalho. A música saiu exatamente como a gravei. Mas acredito na tese do Zeca, as coisas nascem do nosso trabalho, e é muito raro alguém compor uma música toda sem qualquer esforço e emenda."
daqui:
http://www.esquerda.net/dossier/grande-admiracao-pela-juventude/47150
foto - Vigo - com Janita Salomé, Júlio Pereira e Sérgio Mestre
segunda-feira, 15 de maio de 2017
Tancos
Zeca com os pára-quedistas de Tancos, que seriam derrotados no dia 25 de novembro pelos comandos de Jaime Neves, chefiados por Ramalho Eanes.
quinta-feira, 11 de maio de 2017
ELA - Esclerose Lateral Amiotrófica
A doença que matou Zeca Afonso
Doença pouco conhecida na época, levou Zeca a Inglaterra, Roménia, França e Estados Unidos à procura de cura para o mal que o iria vitimar.
Sobre a Clínica João Montezuma Carvalho, em Coimbra onde andou cerca de um mês, diria Zeca em agosto de 1983 a José Salvador que lhe estava a escrever a biografia:
"Oh pá, aquilo é bestial. Estão a chegar estrangeiros de todo o lado. Isto é uma doença incurável, um vírus* como a sida. Daqui a dois meses já sei se o vírus foi ou não morto. Sem este tratamento, eu durava um ano e meio, ou dois anos. Depois ia para as colheres. Eh pá, tu nem imaginas o estado de degradação em que a gente fica"
“Quando o conheci ele já trazia o diagnóstico da doença porque já tinha percorrido vários países. Foi o professor Fernando Tomé, que era amigo dele, que falou comigo porque sabia que me dedicava a esta doença. Vi-o várias vezes, segui-o durante o tempo que ele teve de vida”, conta a neurologista Maria de Lurdes Sales Luís, a médica do cantor e a pessoa que criou a consulta em Portugal (Hospital de Santa Maria). “Ele tinha consciência da gravidade da doença. Sabia o que tinha, que era uma doença progressiva. No caso dele, começou por um dos membros e depois foi progredindo para a fala, para a respiração. Ele nunca se queixou, nem falou sobre o que ia interferir na sua carreira profissional.
“Lembro-me de que quando lhe deram o diagnóstico [antes de começar a ser seguido em Santa Maria] lhe disseram logo quanto tempo de vida tinha. Lembro-me de que havia canções que ele ainda queria gravar mas que a doença não lhe permitiu a dada altura. Lembro-me da coragem que teve para subir ao palco. E do sentido de humor e genialidade dele, que mesmo doente não queria tristezas”, recorda o sobrinho João Afonso, também ele músico. “Uma das coisas que mais recordo do final da vida dele foi nós a limparmos-lhe as lentes dos óculos e coçar-lhe a cabeça, que eram coisas que ele não conseguia fazer”.
“Quando se dá um diagnóstico [de ELA] a um doente é como despejar-lhe um balde de água gelada em cima”, diz ao Observador Anabela Pinto, membro do conselho científico da Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica (APELA).
Obs: o desafio que correu mundo do balde de água gelada pela cabeça abaixo, teve como intenção arrecadar fundos para ONG que combate a Esclerose Lateral Amiotrófica.
Zeca iria sobreviver cerca de 5 anos a esta doença progressiva. Embora sem o nome da doença definida, o relatório do Departamento de Neurologia sediado em Londres de 29 de julho de 1982, já apontava para a degeneração.
Do que se queixava Zeca ao neurologista, nesse exame em Londres:
"Seus sintomas foram progressivos ao longo dos últimos vinte meses. Inicialmente ele notou uma tendência para os dedos ficarem em posições estranhas e subsequentemente tem havido crescente fraqueza e dificuldade com o uso de seus braços, particularmente o braço esquerdo. Houve dificuldade em manusear e tocar instrumentos musicais e, mais recentemente, dificuldade em levantar os braços para tarefas como barbear e pentear os cabelos. Durante este tempo ele se sentiu geralmente fraco e falta de energia. Ele não notou qualquer perturbação na fala e teve apenas dificuldade passageira transitória em três ou quatro ocasiões. Ele não nota qualquer mudança em sua caminhada ou dificuldade com a função do esfíncter. Não houve entorpecimento ou formigueiro nos membros"
* Não é um virus. Na ELA, os neurónios motores (cabos eléctricos) que conduzem a informação do cérebro aos músculos do nosso corpo, passando pela medula espinhal, morrem precocemente. Como resultado, esses músculos, que são os que nos fazem mexer (músculos estriados esqueléticos), ficam mais fracos.
fontes:
revista "Domingo" do CM
http://www.apela.pt
http://observador.pt
foto:Jorge Paula
Doença pouco conhecida na época, levou Zeca a Inglaterra, Roménia, França e Estados Unidos à procura de cura para o mal que o iria vitimar.
Sobre a Clínica João Montezuma Carvalho, em Coimbra onde andou cerca de um mês, diria Zeca em agosto de 1983 a José Salvador que lhe estava a escrever a biografia:
"Oh pá, aquilo é bestial. Estão a chegar estrangeiros de todo o lado. Isto é uma doença incurável, um vírus* como a sida. Daqui a dois meses já sei se o vírus foi ou não morto. Sem este tratamento, eu durava um ano e meio, ou dois anos. Depois ia para as colheres. Eh pá, tu nem imaginas o estado de degradação em que a gente fica"
“Quando o conheci ele já trazia o diagnóstico da doença porque já tinha percorrido vários países. Foi o professor Fernando Tomé, que era amigo dele, que falou comigo porque sabia que me dedicava a esta doença. Vi-o várias vezes, segui-o durante o tempo que ele teve de vida”, conta a neurologista Maria de Lurdes Sales Luís, a médica do cantor e a pessoa que criou a consulta em Portugal (Hospital de Santa Maria). “Ele tinha consciência da gravidade da doença. Sabia o que tinha, que era uma doença progressiva. No caso dele, começou por um dos membros e depois foi progredindo para a fala, para a respiração. Ele nunca se queixou, nem falou sobre o que ia interferir na sua carreira profissional.
“Lembro-me de que quando lhe deram o diagnóstico [antes de começar a ser seguido em Santa Maria] lhe disseram logo quanto tempo de vida tinha. Lembro-me de que havia canções que ele ainda queria gravar mas que a doença não lhe permitiu a dada altura. Lembro-me da coragem que teve para subir ao palco. E do sentido de humor e genialidade dele, que mesmo doente não queria tristezas”, recorda o sobrinho João Afonso, também ele músico. “Uma das coisas que mais recordo do final da vida dele foi nós a limparmos-lhe as lentes dos óculos e coçar-lhe a cabeça, que eram coisas que ele não conseguia fazer”.
“Quando se dá um diagnóstico [de ELA] a um doente é como despejar-lhe um balde de água gelada em cima”, diz ao Observador Anabela Pinto, membro do conselho científico da Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica (APELA).
Obs: o desafio que correu mundo do balde de água gelada pela cabeça abaixo, teve como intenção arrecadar fundos para ONG que combate a Esclerose Lateral Amiotrófica.
Zeca iria sobreviver cerca de 5 anos a esta doença progressiva. Embora sem o nome da doença definida, o relatório do Departamento de Neurologia sediado em Londres de 29 de julho de 1982, já apontava para a degeneração.
Do que se queixava Zeca ao neurologista, nesse exame em Londres:
"Seus sintomas foram progressivos ao longo dos últimos vinte meses. Inicialmente ele notou uma tendência para os dedos ficarem em posições estranhas e subsequentemente tem havido crescente fraqueza e dificuldade com o uso de seus braços, particularmente o braço esquerdo. Houve dificuldade em manusear e tocar instrumentos musicais e, mais recentemente, dificuldade em levantar os braços para tarefas como barbear e pentear os cabelos. Durante este tempo ele se sentiu geralmente fraco e falta de energia. Ele não notou qualquer perturbação na fala e teve apenas dificuldade passageira transitória em três ou quatro ocasiões. Ele não nota qualquer mudança em sua caminhada ou dificuldade com a função do esfíncter. Não houve entorpecimento ou formigueiro nos membros"
* Não é um virus. Na ELA, os neurónios motores (cabos eléctricos) que conduzem a informação do cérebro aos músculos do nosso corpo, passando pela medula espinhal, morrem precocemente. Como resultado, esses músculos, que são os que nos fazem mexer (músculos estriados esqueléticos), ficam mais fracos.
fontes:
revista "Domingo" do CM
http://www.apela.pt
http://observador.pt
foto:Jorge Paula
quarta-feira, 10 de maio de 2017
Luis Goes
"Falar do Zeca é falar de uma pessoa inesquecível. Do seu talento, do seu lirismo, no fundo, para mim, o Zeca foi sempre um lírico, punha as palavras também ao serviço do coração. Eu sei que era assim. (...) Eu durante muito tempo não fui repúblico em Coimbra, porque a minha mãe vivia lá, pois eu sou natural de Coimbra. Devo ser talvez, o único cantor conhecido, pelo menos do nosso tempo, que tenha nascido em Coimbra, de maneira que tinha casa.
O Zeca já era casado, era a primeira mulher, tinha dois filhos e a minha casa era uma "República", e então, muitas vezes, o Zeca chegava e dizia assim: "à D. Leopoldina", que era a minha mãe, "não se importa que os miúdos fiquem aí?" E a minha mãe respondia: "à Sr. Doutor", a minha mãe tratava toda a gente por doutores, porque era costume lá em Coimbra, um indivíduo desde que tivesse capa e batina tratava-se logo por senhor doutor, desde o primeiro ano, "isto é uma maravilha, hem?". Entretanto ficavam lá os dois miúdos e o Zeca esquecia-se. Um dia, a minha mãe, ao fim de dois dias, disse-me assim: "à Luís, desculpa lá, eu sou muito amiga do Zeca, mas ele. . . quando é que? .. " E eu: "... O quê? ainda cá estão?..." Tinha-se esquecido. Depois ia buscá-los."
Zeca de capa e batina na cidade do Cabo - África do Sul - 1949
O Zeca já era casado, era a primeira mulher, tinha dois filhos e a minha casa era uma "República", e então, muitas vezes, o Zeca chegava e dizia assim: "à D. Leopoldina", que era a minha mãe, "não se importa que os miúdos fiquem aí?" E a minha mãe respondia: "à Sr. Doutor", a minha mãe tratava toda a gente por doutores, porque era costume lá em Coimbra, um indivíduo desde que tivesse capa e batina tratava-se logo por senhor doutor, desde o primeiro ano, "isto é uma maravilha, hem?". Entretanto ficavam lá os dois miúdos e o Zeca esquecia-se. Um dia, a minha mãe, ao fim de dois dias, disse-me assim: "à Luís, desculpa lá, eu sou muito amiga do Zeca, mas ele. . . quando é que? .. " E eu: "... O quê? ainda cá estão?..." Tinha-se esquecido. Depois ia buscá-los."
Zeca de capa e batina na cidade do Cabo - África do Sul - 1949
segunda-feira, 8 de maio de 2017
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