quinta-feira, 16 de março de 2017
quarta-feira, 15 de março de 2017
VII Festival Internacional da Canção - Rio de Janeiro
José Afonso
«Levei "A morte saiu à rua" ao Maracanãzinho, procurando afirmar a mensagem política contida na canção. Foi um trabalho completamente inglório. Era o ambiente mais alienatório que tu podes conceber. O que vi nos bastidores foram coisas perfeitamente inconfessáveis. Foi o mais completo gangsterismo. Os prémios já estavam previamente estabelecidos. O americano tinha que ganhar, embora o americano fosse tão ingénuo que nem deu por isso.»
in "Livra-te do Medo" de José A. Salvador
O que eu não sabia é que para além do Zeca esteve outro cantor português, Paulo de Carvalho (convidado pelo "Diário de Lisboa") com o "Maria, Vida Fria" de José Niza e Pedro Osório.
FASE INTERNACIONAL
Portugal: A MORTE SAIU À RUA (José Afonso) José Afonso
Portugal: MARIA, VIDA FRIA (José Niza/Pedro Osório) Paulo de Carvalho
Nem o Zeca nem o Paulo passaram à final.
Em imagens: O cartaz do Festival, o Maracanãzinho, o vencedor do certame (o americano), capa do disco do Paulo de Carvalho com o tema com que concorreu e Zeca com José Ribamar e Jackson do Pandeiro
O evento no Diário de Lisboa
«Levei "A morte saiu à rua" ao Maracanãzinho, procurando afirmar a mensagem política contida na canção. Foi um trabalho completamente inglório. Era o ambiente mais alienatório que tu podes conceber. O que vi nos bastidores foram coisas perfeitamente inconfessáveis. Foi o mais completo gangsterismo. Os prémios já estavam previamente estabelecidos. O americano tinha que ganhar, embora o americano fosse tão ingénuo que nem deu por isso.»
in "Livra-te do Medo" de José A. Salvador
O que eu não sabia é que para além do Zeca esteve outro cantor português, Paulo de Carvalho (convidado pelo "Diário de Lisboa") com o "Maria, Vida Fria" de José Niza e Pedro Osório.
FASE INTERNACIONAL
Portugal: A MORTE SAIU À RUA (José Afonso) José Afonso
Portugal: MARIA, VIDA FRIA (José Niza/Pedro Osório) Paulo de Carvalho
Nem o Zeca nem o Paulo passaram à final.
Em imagens: O cartaz do Festival, o Maracanãzinho, o vencedor do certame (o americano), capa do disco do Paulo de Carvalho com o tema com que concorreu e Zeca com José Ribamar e Jackson do Pandeiro
O evento no Diário de Lisboa
I Encontro da Canção Portuguesa - Relatórios
O considerando do censor Moreira das Neves chamando a atenção que o espetáculo iria "oferecer" aborrecimentos pois as canções eram de carácter contestatário ou subversivo, e os relatórios dos PIDES presentes no evento.
De salientar a observação do fiscal que relativamente a Zeca disse:
"Quando José Afonso, que deve ser o mais "querido" daquele público especial de guedelhudos contestatários..."
Guedelhudos contestatários. Quem não fosse guedelhudo não era contestatário. Enfim! ...
Como todos sabemos o espetáculo esteve em vias de não se efetuar devido à entrega tardia das letras que podiam ser cantadas nesse concerto. Pelos vistos o fiscal que levou as letras não era de se apressar para estas coisas. Mas o espetáculo realizou-se e foi marcante na vida de todos os que a ele assistiram, não só pelo policiamento que houve fora do Coliseu, mas pelo ambiente que dentro se viveu e, como diz no recorte do jornal incluso:
"«Grândola, Vila Morena», foi cantada de pé, por todo o público. Cerca de cinco mil pessoas (...) fizeram estremecer o velho edifício das Portas de Santo Antão"
De salientar a observação do fiscal que relativamente a Zeca disse:
"Quando José Afonso, que deve ser o mais "querido" daquele público especial de guedelhudos contestatários..."
Guedelhudos contestatários. Quem não fosse guedelhudo não era contestatário. Enfim! ...
Como todos sabemos o espetáculo esteve em vias de não se efetuar devido à entrega tardia das letras que podiam ser cantadas nesse concerto. Pelos vistos o fiscal que levou as letras não era de se apressar para estas coisas. Mas o espetáculo realizou-se e foi marcante na vida de todos os que a ele assistiram, não só pelo policiamento que houve fora do Coliseu, mas pelo ambiente que dentro se viveu e, como diz no recorte do jornal incluso:
"«Grândola, Vila Morena», foi cantada de pé, por todo o público. Cerca de cinco mil pessoas (...) fizeram estremecer o velho edifício das Portas de Santo Antão"
I Encontro da Canção Portuguesa ‒ Lisboa, 29 de Março de 1974
Zeca e Adriano não estavam autorizados a participar neste "Encontro" o que levou a "Casa da Imprensa", mentora deste espetáculo, a escrever, através do Ofício nº 181/74, ao Subsecretário de Estado da Informação e Turismo, fazendo o seguinte reparo: «... no momento da entrega da entrega das letras das composições (para análise da Censura), foi a direcção da Casa da Imprensa surpreendida com a informação de que os artistas José Afonso e Adriano Correia de Oliveira não poderiam cantar no espectáculo. (...) Permitimo-nos, pois, solicitar a VExa. os seus bons ofícios no sentido de o embargo em relação aos artistas (...) seja desta vez levantado, ainda que a título excepcional, com a certeza antecipada que a sua presença no palco do Coliseu terá um carácter estritamente artístico.»
Sabemos que foi ali que Zeca cantou a Grândola que viria a ser, a pouco menos de um mês depois, a 2ª senha que deu origem à saída dos quartéis da tropa, rumo à Revolução de Abril.
Zeca só cantou nesse espectáculo duas canções, a "Grândola" e "Milho Verde".
Em pesquisa, sobre as letras enviadas e não censuradas, haviam outras que Zeca podia ter cantado. Talvez não o tenha feito porque a noite já ia longa ou por outro motivo que me escapa.
Aqui ficam todas as letras de Zeca, que a Casa da Imprensa enviou à Comissão de Exame para serem aprovadas ou não (as aprovadas têm um "A" e as que não podiam ser cantadas um "Reprovado").
A letra de uma das canções era totalmente desconhecida, "O Lago", e foi pena que Zeca não a tenha cantado.
Num tema cantado por Manuel Freire, a última quadra foi cortada o que não impediu Manuel Freire na atuação, de a trautear.
42 anos depois, recordemos o som deste evento que ajudou a mudar o curso da nossa história.
Realização de António Macedo e Viriato Teles.
Produção de António Santos.
Programa da RTP Play em 30Mar2014
I Encontro da Canção Portuguesa ‒ Lisboa, 29 de Março de 1974 ‒ Coliseu dos Recreios
Sabemos que foi ali que Zeca cantou a Grândola que viria a ser, a pouco menos de um mês depois, a 2ª senha que deu origem à saída dos quartéis da tropa, rumo à Revolução de Abril.
Zeca só cantou nesse espectáculo duas canções, a "Grândola" e "Milho Verde".
Em pesquisa, sobre as letras enviadas e não censuradas, haviam outras que Zeca podia ter cantado. Talvez não o tenha feito porque a noite já ia longa ou por outro motivo que me escapa.
Aqui ficam todas as letras de Zeca, que a Casa da Imprensa enviou à Comissão de Exame para serem aprovadas ou não (as aprovadas têm um "A" e as que não podiam ser cantadas um "Reprovado").
A letra de uma das canções era totalmente desconhecida, "O Lago", e foi pena que Zeca não a tenha cantado.
Num tema cantado por Manuel Freire, a última quadra foi cortada o que não impediu Manuel Freire na atuação, de a trautear.
42 anos depois, recordemos o som deste evento que ajudou a mudar o curso da nossa história.
Realização de António Macedo e Viriato Teles.
Produção de António Santos.
Programa da RTP Play em 30Mar2014
I Encontro da Canção Portuguesa ‒ Lisboa, 29 de Março de 1974 ‒ Coliseu dos Recreios
terça-feira, 14 de março de 2017
A praxe que não aconteceu
"Em Coimbra, a Formosa
germinavam
as vermelhas estrelas
da loucura" *
"Uma noite, da sarna afirmativa, resolvemos (...) formar uma trupe. Uma tesoira no bolso e a colher de pau (...) alguma coisa a servir de moca e fomos postar-nos no Arco de Almedina onde uma lâmpada, algures, maior espessura conferia à escuridão do lugar. (...) Encostámo-nos àquelas pedras, polidas de seculares encostos (...) embrulhados nas capas que eram então uma segunda pele. Às tantas, veio de lá um vulto, dos lados da alta, embuçado também. Era o Zeca. Foi o sinal para desmancharmos o aparato (...) e o Zeca foi em paz. (1)
(...) Por sorte extraordinária ainda não fui incomodado pela mão inexorável da praxe não sei se por já não ter cara de caloiro (...) se por não ser ainda conhecido entre os dótóres (...) (2). Ontem fui abordado por uma trupe à saída do cinema Avenida, mas descansa que desta vez não fiquei sem cabelo por ter alegado que era jogador (da Académica) (...). Por coincidência engraçada vinha na mesma trupe o João. De forma que, se o chefe da trupe me quisesse rapar, o João tinha que me rapar também. (3)
* Fui ao enterro de um leão - Texto e Canções
(1) - "Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos
(2 e 3) - carta de Zeca aos pais e irmã nos anos 50 in "Livra-te do Medo" de José A. Salvador
foto: Zeca, Mariazinha e João
germinavam
as vermelhas estrelas
da loucura" *
"Uma noite, da sarna afirmativa, resolvemos (...) formar uma trupe. Uma tesoira no bolso e a colher de pau (...) alguma coisa a servir de moca e fomos postar-nos no Arco de Almedina onde uma lâmpada, algures, maior espessura conferia à escuridão do lugar. (...) Encostámo-nos àquelas pedras, polidas de seculares encostos (...) embrulhados nas capas que eram então uma segunda pele. Às tantas, veio de lá um vulto, dos lados da alta, embuçado também. Era o Zeca. Foi o sinal para desmancharmos o aparato (...) e o Zeca foi em paz. (1)
(...) Por sorte extraordinária ainda não fui incomodado pela mão inexorável da praxe não sei se por já não ter cara de caloiro (...) se por não ser ainda conhecido entre os dótóres (...) (2). Ontem fui abordado por uma trupe à saída do cinema Avenida, mas descansa que desta vez não fiquei sem cabelo por ter alegado que era jogador (da Académica) (...). Por coincidência engraçada vinha na mesma trupe o João. De forma que, se o chefe da trupe me quisesse rapar, o João tinha que me rapar também. (3)
* Fui ao enterro de um leão - Texto e Canções
(1) - "Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos
(2 e 3) - carta de Zeca aos pais e irmã nos anos 50 in "Livra-te do Medo" de José A. Salvador
foto: Zeca, Mariazinha e João
terça-feira, 7 de março de 2017
José Afonso - Ao Passar em Carapeços
Inédito
Cantada no concerto em Maison de la Mutualité - Paris - 10 de novembro de 1970
Zeca alterou em parte a letra de "Ao passar a ribeirinha" música tradicional do Alentejo (em alguns lados aparece como dos Açores).
Carapeços é uma freguesia de Barcelos.
Ao passar em Carapeços
Estava tudo à janela
Estava tudo à janela (bis)
Parece que nunca viram
Gente de fora da terra
Gente de fora da terra (bis)
Ao passar em Carapeços
Estava tudo ao postigo
Estava tudo ao postigo (bis)
Parece que nunca viram
Quem é qu’ andava comigo
Quem é qu’ andava comigo (bis)
Ao passar em Carapeços
Estava tudo ao portão
Estava tudo ao portão (bis)
Parece que nunca viram
A quem dei meu coração
A quem dei meu coração (bis)
Não casei na minha terra
Fui casar em terra alheia
Fui casar em terra alheia (bis)
Ao passar a ribeirinha
Pus o pé, molhei a meia
Pus o pé, molhei a meia (bis)
Ao passar em Carapeços
Estava tudo à janela
Estava tudo à janela (bis)
Parece que nunca viram
Gente de fora da terra
Gente de fora da terra (bis)
Cantada no concerto em Maison de la Mutualité - Paris - 10 de novembro de 1970
Zeca alterou em parte a letra de "Ao passar a ribeirinha" música tradicional do Alentejo (em alguns lados aparece como dos Açores).
Carapeços é uma freguesia de Barcelos.
Ao passar em Carapeços
Estava tudo à janela
Estava tudo à janela (bis)
Parece que nunca viram
Gente de fora da terra
Gente de fora da terra (bis)
Ao passar em Carapeços
Estava tudo ao postigo
Estava tudo ao postigo (bis)
Parece que nunca viram
Quem é qu’ andava comigo
Quem é qu’ andava comigo (bis)
Ao passar em Carapeços
Estava tudo ao portão
Estava tudo ao portão (bis)
Parece que nunca viram
A quem dei meu coração
A quem dei meu coração (bis)
Não casei na minha terra
Fui casar em terra alheia
Fui casar em terra alheia (bis)
Ao passar a ribeirinha
Pus o pé, molhei a meia
Pus o pé, molhei a meia (bis)
Ao passar em Carapeços
Estava tudo à janela
Estava tudo à janela (bis)
Parece que nunca viram
Gente de fora da terra
Gente de fora da terra (bis)
segunda-feira, 6 de março de 2017
António Quadros (pintor e poeta)
Zeca já conhecia António Quadros dos tempos de Coimbra. Tinha sido com ele que Zeca se apercebera do «absurdo» e do «artificial de qualquer conflito entre os populares» (os futricas) «durante um conflito depois superado, por causa de umas violências da GNR e da PSP», em que Quadros «enfiou um murro num capitão da Guarda»
Zeca voltaria a encontrar Quadros em Moçambique quando para lá foi em 1964. Musicou e gravou diversos poemas: "Cantares do Andarilho" (1968); "Ronda das Mafarricas" (inicialmente tinha o título de "Evocação das Mafarricas" ou "Canção do Arlindo" (1971); "Sete fadas me fadaram" (1972).
Mas Zeca não ficaria por aqui e musicou também um outro poema de António Quadros. Infelizmente não há registo sonoro, ou talvez haja numa qualquer gravação que fez em Moçambique e esteja em poder de algum familiar do Zeca.
Mar do Marinheiro
Letra de António Quadros sobre fundo popular e música de José Afonso.
"Fui ao mar do marinheiro
A ver o que lá havia
E vi meu amor ao meio
Núinha de morte e fria
Ó mar, marinho, marão
Ó casinha das sereias
Lá tens o meu lindo amor (1)
Entre peixinhos e areias
Ó mar, marinho, marão
Ó mar que nunca mais vejo
Lá tens o meu lindo amor (1)
Transformado em caranguejo"
(1) - No original "Lá tens o meu coração"
Imagem: desenho de António Quadros e anotações de José Afonso que fazem parte do livro “Cantares”, edição SCIP - AA EE de Lisboa - 1969
Zeca voltaria a encontrar Quadros em Moçambique quando para lá foi em 1964. Musicou e gravou diversos poemas: "Cantares do Andarilho" (1968); "Ronda das Mafarricas" (inicialmente tinha o título de "Evocação das Mafarricas" ou "Canção do Arlindo" (1971); "Sete fadas me fadaram" (1972).
Mas Zeca não ficaria por aqui e musicou também um outro poema de António Quadros. Infelizmente não há registo sonoro, ou talvez haja numa qualquer gravação que fez em Moçambique e esteja em poder de algum familiar do Zeca.
Mar do Marinheiro
Letra de António Quadros sobre fundo popular e música de José Afonso.
"Fui ao mar do marinheiro
A ver o que lá havia
E vi meu amor ao meio
Núinha de morte e fria
Ó mar, marinho, marão
Ó casinha das sereias
Lá tens o meu lindo amor (1)
Entre peixinhos e areias
Ó mar, marinho, marão
Ó mar que nunca mais vejo
Lá tens o meu lindo amor (1)
Transformado em caranguejo"
(1) - No original "Lá tens o meu coração"
Imagem: desenho de António Quadros e anotações de José Afonso que fazem parte do livro “Cantares”, edição SCIP - AA EE de Lisboa - 1969
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