terça-feira, 15 de setembro de 2015

Entrevista a Zélia Afonso

DN Artes

JOÃO CÉU E SILVA(JCS) - Tem havido reinterpretações das canções. É bom que aconteça?

ZA - Acho que é bom que aconteça. Gosto mais de umas que de outras, até posso às vezes não gostar mesmo nada de algumas, mas é uma posição difícil a minha porque tenho sempre um modelo e está sempre presente aquilo que poderia dizer.

JCS - Amália interpretou uma… (um reparo. Amália cantou duas de Zeca, o Natal dos Simples antes do 25 de abril - Columbia 45RPM, 27/11/1970 - e Grândola, vila morena após o 25 de abril - Columbia 8E 00640332 G - 1974)

ZA - Sim.

JCS - Deveria ser uma sensação estranha ouvir a alegada cantora do regime interpretar a sua canção!

ZA - Alegada!... Até podia achar que aquela música não era para ser cantada daquela maneira...

JCS - Mas gostava de ouvir as versões?

ZA - Só me lembro que achou graça aos Rádio Macau. Divertiu-se, achou graça que tivessem dado outra roupa.

Daqui:

http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1323493&seccao=M%C3%BAsica

(a gravação do Rádio Macau a que Zeca achou graça. Foi a única gravação dos Rádio Macau nos anos 80. Em 1991 gravaram mais dois temas de Zeca - "Maio maduro Maio" e "Por trás daquela janela")

A canção de intervenção

«Vivemos tantos anos a falar pela calada / só se pode querer tudo quando não se teve nada /só quer a vida cheia quem teve a vida parada». Sérgio Godinho cantava assim, em 1974. Um canto urgente, feito de pequenas notas, de palavras, de motivações imediatas. Nesse tempo não havia tempo para mais. Era necessário motivar as pessoas, dar-lhes a entender o que acontecia, e as canções eram como notícias de jornal: efémeras, é certo, mas ainda assim definitivas. A actividade de José Afonso e dos seus companheiros durante esse ano e meio que durou o PREC repartiu-se entre as tarefas mais urgentes e as lutas mais marcantes dessa altura.

Mas isso não lhe retirou a capacidade crítica. Pelo contrário: «Não confundo canção de intervenção com panfleto partidário, embora, em determinada altura, eu tenha incorrido nesse erro», afirmaria, anos mais tarde. E acrescentava: «A canção de intervenção implica um espírito de renúncia a um triunfalismo fácil, bem como ao vedetismo; implica a noção de que estamos afazer música mais como serviço público do que como forma de averbar glórias.» Tratava-se, assim de uma opção concreta, como explicou noutra ocasião: «Talvez porque tenha uma deformação de 16 anos de ensino, dou a minha preferência à intervenção directa, prefiro levar o ouvinte a fazer a sua própria festa com o imediatismo que a canção suscita.»

Daqui:

http://rateyourmusic.com/list/Altair82/contos_velhos__rumos_novos/

Zeca em Pêro Viseu (Peroviseu)

Zeca Afonso esteve na casa que agora é hotel. A CASA do Conde de Penha Garcia, recuperada por um casal de Peroviseu para empreendimento de turismo rural de três estrelas, recebeu Zeca Afonso, em Maio de 1975. "Foi um dia muito especial para Peroviseu", recorda José Brás Anselmo, o novo proprietário. O momento foi registado para a posteridade e José Brás Anselmo guarda a foto desse dia.

Daqui:

http://www.grandeturismo.com/2014/08/23/zeca-afonso-em-pero-viseu/


Foto: Zeca Afonso a tocar viola no muro que atualmente ladeia a piscina do Hotel Rural.

Eduardo Luís Cortesão - Professor catedrático - 1988

"(…) Eu conheci José Afonso e convivi com ele muito intimamente durante um período curto de tempo e não tenho qualquer dúvida que o que se justificava neste momento é que se fizesse um filme sobre a vida de José Afonso, um filme sobre a sua mensagem. Porque nós, portugueses, neste momento somos um país triste; somos um país pobre de ideias; somos um país de indivíduos cinzentos, que se levantam tristemente, que rancorosamente labutam pelo seu pão, que fazem negócios doidos. Nós, neste momento, somos um país sem poesia, sem beleza, e José Afonso devia ser evocado, porque foi num outro período histórico de Portugal, em que se viveu, realmente, a escuridão, a estupidificação e o abandono, que ele apareceu e deu alma e esperança a muito de nós."

Daqui:

http://josecarlospereira.blogspot.pt/2012/02/eduardo-luis-cortesao-o-filho-do-povo.html

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Zeca no 1º Comício do PCP

28 de Junho de 1974 - Campo Pequeno

Foto daqui:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2014/03/11/primeiro-comicio-do-pcp/

na foto: Zeca Afonso, J.J. Letria, Carlos Paredes, Francisco Nicholson, Adriano Correia de Oliveira e Maria do Céu Guerra.

Zeca na primeira pessoa

«Curioso é que nós passamos 40 ou 50 anos de uma vida a fazer determinadas coisas e um dia mais ou menos de repente, sem que renunciemos a nada do que fizemos, apercebemo-nos de que tudo deveria ter sido diferente. É apenas uma vaga sensação que se instala, sem que saibamos defini-la muito bem. No fundo sou muito mais contraditório e supersticioso do que quis admitir ao longo dos anos.»

«... de facto, os jovens por vezes não se destacam do sistema. Limitam-se a constatar que não há saídas. Essa atitude tem de ser modificada e são eles que a têm de modificar. Se for preciso partir a loiça, escavacar tudo isto, acabar com a burocracia para criar uma sociedade diferente, eles que o façam. Partam mesmo a loiça. Mas são eles que o têm de fazer. Não são os homens da minha geração. Os homens e as mulheres. Aliás, sem as mulheres não se pode fazer nada. Pressinto que, de facto, as mulheres vão ter um papel muito importante na futura sociedade, contanto que não tentem imitar os homens no que eles têm de mau...»


Daqui:

http://hijosdelmundo.blogspot.pt/2007/06/zeca-afonso-sempre.html

POEMA CONTRA A RESIGNAÇÃO - José Jorge Letria

A tinta com que se escreve a dor de um povo
não existe na paleta dos dias perfeitos.
É uma tinta que casa o azul do mar
com a palidez de cal das tardes sem esperança,
o verde, o ocre e a cinza com o metal do grito
que a garganta magoadamente abafa.
E quando os filhos perguntam “amanhã como será?”,
que ninguém retome o fio da história
na enseada de assombros em que tantos sonhos naufragaram.
Condenaram-nos a responder pelo número que somos,
tornados estatística de uma raiva adormecida,
cifra negra que nos resume e derrota. Até quando?

Então e as viagens heróicas, as naus afundadas,
as sinuosas rotas de luz, os astrolábios do espanto
e tudo o mais que se perdeu no esquecimento dos mapas?
São perigosos os poetas na hora do incêndio da memória
com o fogo das palavras que não se rendem nem se vendem.
Agora somos a conta que ficou por pagar, colectiva e brutal,
a miséria sussurrada na aflição das noites,
a dormência dos dedos quando chega a hora
de escrever coragem na página de todos os temores.

Mas há uma pátria que se revolta dentro de nós
quando a música interrompe o sono das casas
e proclama que tudo é legítimo menos a resignação.