quarta-feira, 18 de março de 2015

"Três versões, a mesma música"

Zeca

"Sou filho da África colonial, de Coimbra e da Beira Baixa"

Zeca Afonso foi filho dos locais por onde passou. Angola e Moçambique, terras que lhe moldaram o ritmo da interpretação e a revolta, Coimbra em que a boémia lhe moldou o caráter e Belmonte onde a transição juvenil o despertou para a sexualidade.

E na música? Zeca Afonso foi filho das raízes culturais do nosso canto. Das Beiras, do Algarve, do Alentejo, de Trás-os-Montes, dos Açores e do Minho, Zeca foi beber às fontes do nosso povo, dando o seu cunho pessoal sem esquecer as raízes.

Benedicto Garcia:

Acampamento em Fuzeta - 1973

No día a seguir á "inauguração" do campamento (as tendas eram as sôzinhas que lá havía) chegou pelo lugar o Zé Manel, o filho máis velho do Zeca que andava, também, de férias. Vinha do Norte e trazía um pressente muito especial: além, diante dos dois (e imagino que havería algúms máis) tirou de viola e empezou a cantar uma canção "raiana", que segundo as súas fontes, era cantada nas celebrações nas dúas beiras do Minho, no norte galego e no sul portugués. A canção, simples de composição, tinha tres quadras:

Nosa Senhora da Guía
Guía aos homens do mare
Venha ver a barca vela
Que se vai deitar no mare
Nosa Senhora vai dentro
Os anjinhos a remare"

(Benedicto gravou-a no seu álbum, "Pola Unión" - 1977 com o título "Nossa Señora da Guia")

Coa emoção própria do neófito (e eu éra-o pois a penas gravara um e.p. de 4 canções no 68 em Barcelona) dinlhe ao Zeca o disco e ele fez o próprio e trocou-o por um dele. Neste dico estava "Chula da Póvoa" a súa versão, máis portuguesa, com uma irmá no meu disco, máis galega."

"CHULA DA PÓVOA", do álbum "COM AS MINHAS TAMANQUINHAS" - 1976, letra diferente mas a mesma música.

"Em Janeiro bebo o vinho
Em Fevereiro como o pão
Nem que chovam picaretas
Hás-de cair, Rei-Milhão"

A letra em baixo (em parte semelhante à que Benedicto canta), faz parte do cancioneiro poveiro e é cantada pelo Grupo Folclórico Poveiro com o título "Torradinhas" (disco Alvorada – MEP 60 042 de 1957, informação da data de João Carlos Callixto. As chulas, os viras e as danças de roda são as músicas mais tradicionais deste Grupo).

"Vamos ver a lancha nova,
Vamos ver a lancha nova
Que se vai deitar ao mar,
Que se vai deitar ao mar.

Nossa Senhora vai dentro,
Nossa Senhora vai dentro
E os anjinhos a remar
E os anjinhos a remar."

Deste EP fazem parte as seguintes músicas:

S.João Poveiro
O mar enrola na areia
Torradinhas
Vira de oito


"Torradinhas" cantada e dançada pelo Rancho Poveiro.


Terá Zeca Afonso pensado na Póvoa de Varzim quando fez a "Chula da Póvoa"?

"Nossa Señora da Guia" e a "Chula da Póvoa", cantadas por Benedicto e Zeca Afonso.


Versão que mistura instrumentos dos gaiteiros Treixadura e vozes dos gaiteiros de Lisboa:


Fontes:

Estrolábio

Linguagem popular e cancioneiro poveiro

terça-feira, 10 de março de 2015

"Testemunho de quem viu e conheceu Zeca Afonso"


Pesquisa e recolha na Gazeta das Caldas, Regina Gaspar

José A. Salvador nasceu em Espinho em 1947. Frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, período durante o qual conheceu José Afonso e integrou a Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra durante a crise estudantil de 1969.
Sobre Zeca publicou os volumes "Livra-te do Medo - Histórias e Andanças do Zeca Afonso" (1985), "José Afonso: O Rosto da Utopia" (1994) e "Zeca Afonso - Livra-te do Medo" (2014).

Obs: Neste depoimento José Salvador refere que Zeca tinha ganho um concurso de canções no Brasil. Não li em nenhum lado que isso tivesse acontecido. Zeca esteve em 1972 no VII Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro em representação de Portugal, depois de ter saído vencedor da votação levada a cabo pelo jornal o "Diário de Lisboa" com 25.622 votos.

O nome ao contrário que os jornalistas se serviam no tempo da censura para designar o Zeca, era "Acez Osnofa".

"Na Rua António Maria"

Poema manuscrito por Zeca Afonso, apreendido no dia 4 de Outubro de 1971 quando foi detido pela DGS no aeroporto de Lisboa «por suspeitas de exercer actividades atentatórias da segurança do Estado» e enviado para Caxias.



Durante o interrogatório foi acusado de ofensas à honra e consideração devida a sua Excelência o Presidente do Conselho, contidas no poema apreendido "Na Rua António Maria da Primaz Instituição".


P.S. - Conceição Matos foi presa em 1965, depois em 1968. Activista política clandestina, membro do PCP, torturada pela PIDE de forma particularmente cruel – o Zeca escreveu este poema, oferecendo-lhe o texto por si manuscrito, na versão original. A letra, que ataca explicitamente a PIDE em homenagem a uma combatente expressamente nomeada.


Zeca Afonso cantou este tema em "Maison de la Mutualité" - Paris a 10 de novembro de 1970


Fontes:

"Livra-te do Medo" José A. Salvador

Lusografias

Avante

Estranha Forma de Vida - Uma História da Música Popular Portuguesa

Este episódio (16), retrata a música surgida após o 25 de abril de 1974. Testemunhos de Vieira da Silva, Sérgio Godinho, Fernando Tordo, Viriato Teles, Júlio Isidro e tantos outros, que estiveram por "dentro" desta mudança musical.

Zeca Afonso é, sem dúvida, figura incontornável desta época como já o fora antes do 25 de abril.

Autoria e apresentação de Jaime Fernandes | Textos de António Macedo, Henrique Amaro, João Carlos Callixto, João Gobern, Nuno Galopim, Nuno de Siqueira, Vitor Duarte Marceneiro e Viriato Teles | Entrevistas por António Macedo e Viriato Teles | Pesquisa de Arquivo por João Carlos Calixto | Produção de Paula Paiva e Eva Verdú |
Autoria de textos: Pedro Félix e João Carlos Callixto, entrevistas: Jaime Fernandes, pesquisa: Edgar Fonseca.


Estranha Forma de Vida - Uma História da Música Popular Portuguesa

Viriato Teles - 25 anos com Zeca

Publicado em 25.Fev.2012

Nestes dias em que tanto se fala de José Afonso e do seu génio, gosto sobretudo de recordar que, para além da música, o Zeca era acima de tudo um homem. Um homem empenhado nas grandes lutas do seu tempo, com certeza, que procurou viver de modo integral – o que só se alcança quando se assume viver com as fragilidades, as virtudes, os defeitos, as grandezas e as contradições comuns a todos os homens.

Há hoje uma tendência, por parte de alguns dos seus/meus amigos (e porventura ainda mais dos que nunca o conheceram, à parte umas quantas adultas e descompassadas bestas que ainda não desistiram de demonizá-lo como perigoso agitador comunista), uma tendência, dizia, para um certo culto da memória de Zeca Afonso que tende a transformá-lo numa «unanimidade nacional» ou, pior ainda, numa espécie de «santo de madeira», como diria Nicanor Parra. E isso é mau e injusto – uma inverdade, como agora se diz em linguagem jornalístico-parlamentar – porque o Zeca nunca quis ser unânime. Ele escolheu conscientemente o lado da vida onde queria estar, mesmo sabendo que isso implicava um preço a pagar. E pagou-o, com juros elevadíssimos, como bem sabemos.

O Zeca era um homem preocupado como poucos com os problemas dos seus iguais. O que não o impedia de ter um sentido de humor frequentemente sibilino, de que aliás há testemunho em várias das suas canções ou em pormenores que fazia incluir nos discos – fossem as estrambólicas introduções improvisadas de temas como Senhor Arcanjo ou Rio Largo de Profundis, ou detalhes imperceptíveis a olhares menos atentos – e deixem só que lembre, de passagem e porque a propósito, a ficha técnica da edição original do álbum Coro dos Tribunais (Orfeu, 1974) onde, a par dos vários instrumentos, incluiu uma subtil referência aos «gases e flatulências» executados, digamos assim, no estúdio por ele próprio, pelo Adriano, o Fausto e o Carlos Moniz – o que ainda hoje é recordação gaudiosa, como bem se entende…

O José Afonso que conheci era um homem que conjugava uma grande aptidão para o diálogo com uma inamovível capacidade de indignação. E era, claro, um indivíduo complexo, por vezes difícil, intransigente consigo mesmo e com os outros, mas também capaz da complacência, com muito mais dúvidas do que certezas. E é essa dimensão que faz dele um ser de excepção, para lá do genial poeta e compositor e cantor que foi – e continua a ser. Ou, se quisermos, como escreveu Baptista-Bastos sobre Che Guevara: «havia nele qualquer coisa de divino porque era simplesmente um homem».

Recordemo-lo assim, então, porque é assim que se mantém vivo tudo aquilo que nos legou.


Viriato Teles

"Fados de Coimbra" - 1957

Capa de um EP lançado em 1957. Neste disco José Afonso partilha com Luís Goes, cantando “Fado das Águias” e “O Sol anda lá no Céu”.


O mesmo alinhamento e a mesma referência do disco (ALVORADA MEP 60050), sai em 1964-1965? mas com uma capa diferente. Esta segunda versão é que é a mais vista e conhecida.


Os meus agradecimentos ao "fraty" pelo envio.

Obs: O "Fado das Águias" não é de Zeca Afonso, embora conste isso no disco, mas sim:
Letra: Camilo Castelo Branco (1ª quadra)
Fernando de Lemos Quintela (2ª quadra)
Música: A. Dias da Costa