quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Atuação do Zeca na Festa de Amizade

Festa de Amizade - 5 de fevereiro de 1983


Ao fim de 32 anos, com o esforço conjunto de uma série de amigos, é possível apresentar o som da última atuação (até agora) do Zeca Afonso em palco (o som da gravação do fado que Zeca canta, "Saudades de Coimbra", que aparece no disco de Homenagem ao Zeca em Coimbra a 26 de maio de 1983, não é o som original).

Nunca será demais agradecer a quem fez com que este evento fosse possível dar a conhecer a todos nós, em fotos, em som e na imprensa da época. A eles (Fernando Manuel, José Carlos Faria e Regina Gaspar) um muito Obrigado, sem a vossa disponibilidade e empenho esta "Festa" não seria possível.

"Vira de Coimbra"

Na discografia do Zeca, o "Vira de Coimbra" faz parte de dois discos: EP "Balada do Outono" - 1960 e do LP "Fado de Coimbra e outras canções" - 1981, com quadras distintas entre estes dois discos.

Em ambos aparece como popular o autor da música e letra deste "Vira". Mas no EP de 1960 uma das quadras não é popular. A 4ª quadra é de um poeta bem conhecido, António Nobre.

Vira de Coimbra de 1960

(1ª)
Dizem que amor de estudante
Não dura mais que uma hora
Só o meu é tão velhinho
Inda se não foi embora.
(2ª)
Coimbra pra ser Coimbra
Três coisas há-de contar
Guitarras, tricanas lindas,
Capas negras a arejar
(3ª)
Ó Portugal trovador
Ó Portugal das cantigas
A dançar tu dás a roda
A roda co'as raparigas
(4ª)
Vou encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei
Mondego qu'é da tu'água
qu'é dos prantos que eu chorei.


A última quadra, está no seu livro de poemas "Só" (1890).

"Vou encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei
Mondego qu'é da tu'água
qu'é dos prantos que eu chorei
."


É a sétima quadra do poema, “Para as raparigas de Coimbra”.

(1ª)
"Tristezas têm-nas os montes,
Tristezas têm-nas o Céu,
Tristezas têm-nas as fontes,
Tristezas tenho-as eu!
(2ª)
O choupo magro e velhinho,
Corcundinha, todo aos nós,
És tal qual meu Avôzinho:
Falta-te apenas a voz.
(3ª)
Minha capa vos acoite
Que é para vos agazalhar:
Se por fora é côr da noite,
Por dentro é côr do luar …
(4ª)
Ó sinos de Santa Clara,
Por quem dobraes, quem morreu?
Ah, foi-se a mais linda cara
Que houve debaixo do Céu!
(5ª)
A sereia é muito arisca,
Pescador, que estás ao Sol:
Não cae, tolinho, a essa isca …
Só pondo uma flor no anzol!
(6ª)
A Lua é a hostia branquinha,
Onde está Nosso Senhor:
É duma certa farinha
Que não apanha bolor.
(7ª)
Vou a encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, q’ué da tua agoa,
Q’ué dos prantos que eu chorei
?


...

Coimbra, 1890."

Esta mesmo quadra faz parte do "Fado d'Anto" (3ª) musicado e cantado por Francisco Menano e poema de António Nobre (Zeca Afonso no seu "Fado d'Anto" só canta duas destas quadras por esta ordem, 5ª e 4ª)

(1ª)
"Meninas, lindas meninas !
Qual de vós é o meu ideal ?
Meninas , lindas meninas
Do Reino de Portugal !
(2ª)
Minha capa vos acoite,
Que é p'ra vos agasalhar;
Se por fora é côr de noite,
Por dentro é côr do luar ...
(3ª)
Vou encher a bilha e trago-a
Vasia como a levei !
Mondego, que é da tua água
Que é dos prantos que chorei?

(4ª)
Ó quem me dera abraçar-te,
Contra o peito assim, assim,
Levar-me a morte e levar-te
Toda abraçadinha a mim.
(5ª)
A cabra da velha Torre,
Meu amor, chama por mim;
Quando um estudante morre,
Os sinos chamam, assim.
(6ª)
Ó sinos de Santa Clara,
Por quem dobraes, quem morreu ?
Ah, foi-se a mais linda cara
Que houve debaixo do Céu!"

(o português que está nos poemas, é o português original da época em que estes poemas foram concebidos)

Assim podemos considerar que no "Vira de Coimbra" de Zeca Afonso, as 1ª, 2ª e 3ª quadra são de autor desconhecido (por enquanto) mas a 4ª tem um nome e esse é António Nobre.

Existe esta placa em Coimbra (Parque Manuel Braga) onde podemos certificar a autoria do poema.


O poema de António Nobre declamado por Luís Gaspar



Fontes:

Penedo da Saudade
Estúdio Raposa
Natura di uminho

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Zeca em Montmorillon

Coloquei aqui um tema sobre o fósforo que acendeu o cigarro do Zeca em Paris quando o Zeca atuou no Théâtre de la Ville em novembro de 1981.

Sobre o assunto disse Pierre Brugier:

"No dia de folga, 19, por amizade, deu o pulo até Montmorillon para um espectáculo único e inesquecível, acompanhado pelo Janita, o Júlio e o falecido Serginho! Grandes momentos!

Eu vou procurar o corte dos jornais locais...Mas imagine ...o Zeca em Montmorillon...Naquele dia, realizei um dos meus sonhos...os meus alunos todos a acompanhá-lo nas canções! E a surpresa dele...!"

... E o Pierre Brugier não se ficou pelas palavras e foi. Foi e conseguiu estes recortes na imprensa local, da presença do Zeca nesse espetáculo.


Apresentação em Montemorillon feita por Pierre Brugier, sobre a participação de José Afonso a 19 de novembro de 1981

José Afonso à Montmorillon

La venue de José Afonso, jeudi 19 novembre au CAR de Montmorillon est sans conteste un grand événement pour notre région.
Depuis de nombreuses années, il est l'un des artistes les plus populaires du Portugal et du monde lusophone.
Il commença à chanter alors qu'il était étudiant à Coimbra. (il est licencié en histoire de la philosophie) Pendant la dictature salazariste, il fut le chef de file des chanteurs dits « de résistence ou d'intervention »; il a d'ailleurs payé moralement et physiquement de sa personne son opposition au régime.

A l'aube du 25 avril 1974, c'est une de ses chansons, « Grândola, Vila Morena » qui annonça sur les ondes portugaises le soulèvement populaire qui libéra le Portugal de la dictature. Cette chanson devait ensuite devenir l'hymne de la Révolution des Oeillets!
Depuis, José Afonso est toujours le troubadour de la Liberté. Il a su rester en marge de tout régime et de tout parti. Bien que se reconnaissant révolutionnaire, il déclarait récemment:

« Je suis mon propre comité central ».

Il adapte avec bonheur la musique populaire des provinces de son pays, des anciennes colonies, mais revient aussi aux balades de ses débuts. La recherche est permanente, pour les textes comme pour la musique de ses chansons. Sa voix, à elle seule est un instrument hors du commun. En un mot, c'est le « Grand Monsieur » de la chanson portugaise!
Il chante actuellement au Théatre de la Ville à Paris. A Montmorillon, il sera accompagné par des musiciens de talent: Júlio Pereira, Janita et Serginho Mestre.

Pierre Brugier.

Tradução livre

"A chegada de José Afonso, quinta-feira 19 de novembro no CAR Montmorillon é, sem dúvida, um grande evento para a nossa região.
Durante anos, é um dos artistas mais populares de Portugal e do mundo de língua Português.
Começou a cantar quando era um estudante em Coimbra. (tem uma licenciatura em história da filosofia). Durante a ditadura de Salazar, era o líder dos chamados cantores "da resistência ou intervenção"; também pagou moralmente e fisicamente em pessoa sua oposição ao regime.

Na madrugada de 25 de Abril de 1974, é uma de suas canções, "Grândola, Vila Morena", que anunciou em ondas portuguesas a revolta popular que libertou Portugal da ditadura. Esta canção torna-se o hino da Revolução dos Cravos!
José Afonso ainda é o trovador da Liberdade. Ele manteve-se à margem de qualquer plano e qualquer partido. Apesar de reconhecer-se revolucionário, ele disse recentemente:

"Eu sou o meu próprio Comité Central."

Ele se adapta a música felizmente populares das províncias de seu país, e ex-colónias, mas também caminha até sua estreia (neste caso Pierre deve estar a referir-se a textos e musicas originais do Zeca). A investigação está em curso para textos como a música de suas canções. Sua voz por si só é um instrumento incomum. Em uma palavra, é o "Grand Monsieur", da canção Portuguesa.
Atualmente canta no Teatro de la Ville, em Paris. Em Montmorillon, será acompanhado por músicos talentosos: Júlio Pereira, Janita e Serginho Mestre.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

"O fósforo que ainda arde"


No rasto de Zeca em Paris - Uma história comovente.

"A 13 de abril de 2012, comecei a procurar o rasto de José Afonso em Paris [...] ao pé do Sena, entrei no metro para chegar a Boulevard la Tour Maubourg, ao Centro Calouste-Gulbenkian e ali…

Ali achei o rosto da utopia. O rosto da utopia foi o livro que me trouxe amavelmente a bibliotecária da Gulbenkian, escrito por José A. Salvador em 1994.

Molhei os dedos nos lábios para passar as páginas. De entrada descobri que o Zeca escreveu, nos seus tempos no Colégio Mangualde, em Setúbal, uma tese sobre Sartre e que um tal Padre Miguel lhe disse: “O senhor pelo que li apresenta inequívocos indícios de poeira mental”.

Molhei outra vez os dedos e ao passar a página achei, surpreendendo-me, a foto do cartaz do concerto de 1981 em Paris, colado no metro.


No meu terceiro dia em Paris cheguei-me ao mercado de Poisy, um dos bairros de forte imigração portuguesa, e entrei no bar Coimbra.

Faltava-me o final da história e havia que intentá-lo. Assim que quando aquela mulher, olhos negros, sessenta anos, me serviu a ginginha, eu falei-lhe: Olá, bom dia, venho da Galiza, de Santiago de Compostela, e estou a procurar informações sobre a presença do Zeca Afonso em Paris… Sabe quem me poderia ajudar?

Ela disse simplesmente: Eu. E foi-se embora. Regressou com mais um copo, serviu-se da ginginha e disse: Em 1981 veio cantar ao Théâtre de la Ville, e depois do concerto eu esperei por ele. Queria dar-lhe dois beijinhos, eu adorava o Zeca. Havia muita gente. Ele tirou um cigarro, levou-o à boca, mas não tinha lume. Eu, ligeira, acendi um fósforo e protegendo-o assim, com esta mão, cheguei-lho a arder. E assim foi… Eu dei lume a José Afonso, disse orgulhosa aquela mulher, a sorrir com muito ar no peito.

Tenho-o cá, disse, o fósforo. Vou buscá-lo. E foi e voltou com um envelope de papel amarelecido, quase transparente. A mulher que deu lume a José Afonso em Paris abriu o envelope, tirou o fósforo, mostrou-mo pegando nele com o indicador e o polegar, pousou-no em silêncio na mesa, dentro dum dos olhos da madeira, e eu tirei-lhe uma foto.


Parece que ainda arde…, disse baixinho.

Chama-se Patrícia Maria Verde Vilar. Antes de despedir-me perguntei-lhe: De que canção do Zeca gostava mais? E ela disse: Enquanto há força.

E eu saí a assobiar… Seremos muitos, seremos alguém."

Texto e fotos de Xosé Luís González Sende, conhecido por Séchu Sende, escritor galego.

Tradução do galego: Mário Lima (fiz os possíveis para ser, o quanto possível, fiel ao original)

Daqui


Atuação do Zeca no Théâtre de la Ville (fotografias de josé maria laura)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Ano 1983 - Cronologia das atuações

29 de janeiro - Coliseu de Lisboa


Bilhete do espetáculo


5 de fevereiro - Caldas da Rainha


25 de maio - Coliseu do Porto



A pedido de Zeca Afonso, todos os bilhetes do último concerto no Coliseu do Porto em 25 de maio de 1983 tiveram um único preço, 500 escudos.

P.S. - A data da MC que acompanha o ingresso está errada. É 1983 e não 1985 como lá consta.


26 de maio - Coimbra


1 de junho - Beja

Festa de Amizade com Zeca Afonso - 5 de fevereiro de 1983




O meu sincero agradecimento a Fernando Manuel e a Carlos Salomé, pelo envio das fotos e folheto da participação do Zeca, na Festa da Amizade no dia 5 de fevereiro de 1983 nas Caldas da Rainha.

... e aos testemunhos de quem lá esteve

"[...] Depois de estar nas Caldas da Rainha, novamente num espectáculo com José Afonso, a 5 de Fevereiro, numa homenagem que lhe prestaram, em que também actuou Armando Marta com a sua peça "Grândola de novo"..."

de Octávio Sérgio - guitarrista que colaborou com o Zeca

Daqui

comentário de Fernando Manuel no meu FB "Tributo a Zeca Afonso"

"[...] na verdade o dia 29 (dia que foi escolhido para o Concerto no Coliseu em Lisboa) era para ser nas Caldas da Rainha, mas a "Era Nova" (Cooperativa de Acção Cultural (1978)) entendeu que seria melhor ser primeiro em Lisboa, o Zeca falou connosco, e mudamos o dia para 5 de fevereiro, fomos ao coliseu dia 29 e depois fizemos nas Caldas que devo dizer que todos os artistas se disponibilizaram a vir actuar gratuitamente em prol do Zeca"


comentário de José Carlos Faria (e seguintes no FB "Os Amigos de José Afonso") do grupo "Charanga" que atuaram nessa festa

"Eu integrava o grupo Charanga (que tinha acabado de gravar um LP e consta do cartaz aqui publicado) e posso confirmar que o Zeca actuou, sim, inclusivamente com alguns de nós a acompanhá-lo em palco. [...] a primeira parte foi uma demonstração de judo e karaté (porque o Zeca tinha sido judoca), mas depois foi música e poesia e aí, repito, ele actuou. Inclusivamente há pouco tempo foi descoberta num arquivo esquecido uma gravação audio do espectáculo.

...

"O Júlio Pereira foi o músico principal no acompanhamento do Zeca em palco, mas também o Sérginho, na flauta, que tinha estado pouco tempo antes no Coliseu. Já não me recordo se o Durval Moreirinhas e o Octávio Sérgio também o acompanharam (creio que sim) mas a gravação confirmará o alinhamento.

de Jorge Francisco:

"Posso voltar a confirmar que o Zeca ACTOU. Eu estive mesmo junto ao palco com um grupo de amigos das Caldas."

comentário de Regina Gaspar

"Cantou e muito...eu estava lá bem o vi e ouvi.....notava-se nele muita dificuldade sim. Mas cantou."

"... até me recordo de lá se comentar da dificuldade que ele tinha em utilizar os instrumentos de percussão e já não sei quem mas alguém teve que o ajudar....foi muito comovente.[...} Acrescento que o concerto terminou com a actuação dele."

de José Peixoto Henriques:

"Eu estive lá, ainda tenho o autocolante que diz "Festa da amizade, cantar Abril em Fevereiro". Quem foi ao palco saudar o Zeca foi a Natália Correia..."

O folheto do evento


autocolante da Festa


A Festa da Amizade na Gazeta das Caldas - Recolha de Regina Gaspar (para aumentar, clicar na imagem)